terça-feira, 14 de setembro de 2010
Psicografia Chico Xavier - Nilo Peçanha
Psicografia Chico Xavier - Nilo Peçanha
Precisávamos para a solução de nossos problemas mais urgentes, não de copiar artigos e regras burocráticas, mas firmar pensamentos construtores, que renovassem os nossos institutos de ordem social e política, hoje seriamente ameaçados em suas bases, justamente pelo descaso e inércia com que observamos as exposições das teorias falsas e errôneas para a esfera do governo, as quais infiltrando-se no âmago das coletividades, preparam os surtos dos arrasamentos.
Nem sempre liberdade significa prosperidade. Dar muitas liberdades a um povo que se ressente de necessidades gravíssimas, inconsciente ainda de suas responsabilidades, falando-se de um modo geral, é fornecer ar
armas perigosas para a destruição da vida desse mesmo povo. No Brasil, sobram as regalias políticas e as liberdades publicas. Tudo requer ordem e método. As coletividades brasileiras fazem mais questão do direito da higiene, do conforto necessário, do pão e da escola que do direito irrisório do voto, dentro das lutas de clã e no ambiente viciado dos partidos.
O povo brasileiro tem colhido inúmeras ilusões nas experiências coletivas, conquistadas, muitas vezes, à farsa de sangue, nos seus deploráveis movimentos revolucionários. Revolução implica, em si, destruição de tudo quanto está feito. Mais prudente seria que pudésse-mos observar constantemente a evolução geral, conseguindo norteá-la para um caminho de benefícios generalizados para a coletividade. Infelizmente esses movimentos em nosso país objetivam unicamente o individualismo dos políticos ambiciosos e a hegemonia dos Estados em detrimento das outras unidades da Federação. Movimentos revolucionários em nossa terra representam lutas dolorosas onde as ações ficam encerradas nas palavras das praças públicas, onde as massas sofredoras eO povo brasileiro tem colhido inúmeras ilusões nas experiências coletivas, conquistadas, muitas vezes, à farsa de sangue, nos seus deploráveis movimentos revolucionários. Revolução implica, em si, destruição de tudo quanto está feito.
Mais prudente seria que pudésse-mos observar constantemente a evolução geral, conseguindo norteá-la para um caminho de benefícios generalizados para a coletividade. Infelizmente esses movimentos em nosso país objetivam unicamente o individualismo dos políticos ambiciosos e a hegemonia dos Estados em detrimento das outras unidades da Federação. Movimentos revolucionários em nossa terra representam lutas dolorosas onde as ações ficam encerradas nas palavras das praças públicas, onde as massas sofredoras eO povo brasileiro tem colhido inúmeras ilusões nas experiências coletivas, conquistadas, muitas vezes, à farsa de sangue, nos seus deploráveis movimentos revolucionários. Revolução implica, em si, destruição de tudo quanto está feito. Mais prudente seria que pudésse-mos observar constantemente a evolução geral, conseguindo norteá-la para um caminho de benefícios generalizados para a coletividade. Infelizmente esses movimentos em nosso país objetivam unicamente o individualismo dos políticos ambiciosos e a hegemonia dos Estados em detrimento das outras unidades da Federação
Movimentos revolucionários em nossa terra representam lutas dolorosas onde as ações ficam encerradas nas palavras das praças públicas, onde as massas sofredoras e anônimas guardam os mesmos enganos de sempre. Seria ideal que os brasileiros se unissem para a cruzada bendita do reerguimento da nacionalidade, conscientes de seu valor próprio, prescindindo as influências estrangeiras, realizando, construindo a pátria de amanhã, cujo futuro promissor constitui uma larga esperança para a Humanidade. Do próprio Nordeste, cheio de flagelados e desi-ludidos, poder-se-ia fazer um oásis. Aí temos os homens do pensamento e da ação, realizadores práticos, corajosos, que atacariam, de pronto, os problemas maia fortes de nossa economia, preservando-a, metodizando-a para o bem-estar da nação. Mas onde se conservam essas criaturas do sentimento e do raciocínio que as melhores capacidades caracterizam? Justamente, quase todos, por nossa infelicidade, se conservam afastados da paixão política que empolga a generalidade dos nossos homens públicos; com algumas exceções, a nossa política administrativa, infelizmente, está cheia daqueles que apenas se aproveitam da situação, para os favores pessoais e para as condenáveis pretensões dos indivíduos. O sentimento da solidariedade das classes, do amparo social, que deveriam constituir as vigas mestras de um instituto de governo, são relegados para um plano inferior, a fim de que se saliente o partido, a pretensão, o chefe, a figura centralizadora de cada um, em desprestígio de todos.
É dessa orientação nociva que se vem derivando o mal-estar das classes produtoras e proletárias, no Brasil, predispondo-as a um estado de incompreensão altamente prejudicial à execução dos programas econômicos e políticos. E daí, a necessidade de uma compreensão mais profunda por parte do governo que deverá, rebuscar no cadinho das análises minuciosas, os menores problemas das classes, para resolvê-los, antes que elas, perigosamente, se abalancem a resolver por si mesmas.
Nesse trabalho de orientar os nossos homens do governo, estamos todos nós empenhados, todos os que, do plano espiritual, não obstante a ausência da indumentária carnal, vivem pugnando por um Brasil mais forte, unido e mais feliz.
Esses problemas grandiosos têm sido relegados a um plano inferior pelos nossos administradores, os quais infelizmente arraigados aos sentimentos de personalismo vivem apenas para as grandes oportunidades.
Faz-se necessário melhorar as, condições das classes operárias antes que elas se recordem de o fazer, segundo as suas próprias deliberações, entregando-se à sanha de malfeitores que sob as máscaras da demagogia e a pretexto de reivindicações, vivem no seu seio para explorar-lhes os entusiasmos vibrantes que se exteriorizam sem objeto definido.
Nilo Peçanha
(Recebida em Pedro Leopoldo a 31 de julho de 1935)
Precisávamos para a solução de nossos problemas mais urgentes, não de copiar artigos e regras burocráticas, mas firmar pensamentos construtores, que renovassem os nossos institutos de ordem social e política, hoje seriamente ameaçados em suas bases, justamente pelo descaso e inércia com que observamos as exposições das teorias falsas e errôneas para a esfera do governo, as quais infiltrando-se no âmago das coletividades, preparam os surtos dos arrasamentos.
Nem sempre liberdade significa prosperidade. Dar muitas liberdades a um povo que se ressente de necessidades gravíssimas, inconsciente ainda de suas responsabilidades, falando-se de um modo geral, é fornecer ar
armas perigosas para a destruição da vida desse mesmo povo. No Brasil, sobram as regalias políticas e as liberdades publicas. Tudo requer ordem e método. As coletividades brasileiras fazem mais questão do direito da higiene, do conforto necessário, do pão e da escola que do direito irrisório do voto, dentro das lutas de clã e no ambiente viciado dos partidos.
O povo brasileiro tem colhido inúmeras ilusões nas experiências coletivas, conquistadas, muitas vezes, à farsa de sangue, nos seus deploráveis movimentos revolucionários. Revolução implica, em si, destruição de tudo quanto está feito. Mais prudente seria que pudésse-mos observar constantemente a evolução geral, conseguindo norteá-la para um caminho de benefícios generalizados para a coletividade. Infelizmente esses movimentos em nosso país objetivam unicamente o individualismo dos políticos ambiciosos e a hegemonia dos Estados em detrimento das outras unidades da Federação. Movimentos revolucionários em nossa terra representam lutas dolorosas onde as ações ficam encerradas nas palavras das praças públicas, onde as massas sofredoras eO povo brasileiro tem colhido inúmeras ilusões nas experiências coletivas, conquistadas, muitas vezes, à farsa de sangue, nos seus deploráveis movimentos revolucionários. Revolução implica, em si, destruição de tudo quanto está feito.
Mais prudente seria que pudésse-mos observar constantemente a evolução geral, conseguindo norteá-la para um caminho de benefícios generalizados para a coletividade. Infelizmente esses movimentos em nosso país objetivam unicamente o individualismo dos políticos ambiciosos e a hegemonia dos Estados em detrimento das outras unidades da Federação. Movimentos revolucionários em nossa terra representam lutas dolorosas onde as ações ficam encerradas nas palavras das praças públicas, onde as massas sofredoras eO povo brasileiro tem colhido inúmeras ilusões nas experiências coletivas, conquistadas, muitas vezes, à farsa de sangue, nos seus deploráveis movimentos revolucionários. Revolução implica, em si, destruição de tudo quanto está feito. Mais prudente seria que pudésse-mos observar constantemente a evolução geral, conseguindo norteá-la para um caminho de benefícios generalizados para a coletividade. Infelizmente esses movimentos em nosso país objetivam unicamente o individualismo dos políticos ambiciosos e a hegemonia dos Estados em detrimento das outras unidades da Federação
Movimentos revolucionários em nossa terra representam lutas dolorosas onde as ações ficam encerradas nas palavras das praças públicas, onde as massas sofredoras e anônimas guardam os mesmos enganos de sempre. Seria ideal que os brasileiros se unissem para a cruzada bendita do reerguimento da nacionalidade, conscientes de seu valor próprio, prescindindo as influências estrangeiras, realizando, construindo a pátria de amanhã, cujo futuro promissor constitui uma larga esperança para a Humanidade. Do próprio Nordeste, cheio de flagelados e desi-ludidos, poder-se-ia fazer um oásis. Aí temos os homens do pensamento e da ação, realizadores práticos, corajosos, que atacariam, de pronto, os problemas maia fortes de nossa economia, preservando-a, metodizando-a para o bem-estar da nação. Mas onde se conservam essas criaturas do sentimento e do raciocínio que as melhores capacidades caracterizam? Justamente, quase todos, por nossa infelicidade, se conservam afastados da paixão política que empolga a generalidade dos nossos homens públicos; com algumas exceções, a nossa política administrativa, infelizmente, está cheia daqueles que apenas se aproveitam da situação, para os favores pessoais e para as condenáveis pretensões dos indivíduos. O sentimento da solidariedade das classes, do amparo social, que deveriam constituir as vigas mestras de um instituto de governo, são relegados para um plano inferior, a fim de que se saliente o partido, a pretensão, o chefe, a figura centralizadora de cada um, em desprestígio de todos.
É dessa orientação nociva que se vem derivando o mal-estar das classes produtoras e proletárias, no Brasil, predispondo-as a um estado de incompreensão altamente prejudicial à execução dos programas econômicos e políticos. E daí, a necessidade de uma compreensão mais profunda por parte do governo que deverá, rebuscar no cadinho das análises minuciosas, os menores problemas das classes, para resolvê-los, antes que elas, perigosamente, se abalancem a resolver por si mesmas.
Nesse trabalho de orientar os nossos homens do governo, estamos todos nós empenhados, todos os que, do plano espiritual, não obstante a ausência da indumentária carnal, vivem pugnando por um Brasil mais forte, unido e mais feliz.
Esses problemas grandiosos têm sido relegados a um plano inferior pelos nossos administradores, os quais infelizmente arraigados aos sentimentos de personalismo vivem apenas para as grandes oportunidades.
Faz-se necessário melhorar as, condições das classes operárias antes que elas se recordem de o fazer, segundo as suas próprias deliberações, entregando-se à sanha de malfeitores que sob as máscaras da demagogia e a pretexto de reivindicações, vivem no seu seio para explorar-lhes os entusiasmos vibrantes que se exteriorizam sem objeto definido.
Nilo Peçanha
(Recebida em Pedro Leopoldo a 31 de julho de 1935)
Assaltantes levaram até marmitas dos passageiros
Grupo faz arrastão em ônibus no Rio de Janeiro
Assaltantes levaram até marmitas dos passageiros do veículo que tinha como destino final a Central do Brasil
Pelo menos 60 pessoas foram roubadas por cinco homens armados na manhã de quinta-feira (9/09) durante trajeto de uma linha de ônibus que saiu de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, com destino à Central do Brasil, no centro do Rio de Janeiro. De acordo com a Polícia Civil, os criminosos levaram celulares, dinheiro, cartões e até marmitas dos passageiros. As fardas de três policiais militares também foram roubadas.
Os criminosos conseguiram descer na Avenida Brasil, de onde fugiram. Ninguém foi preso e não houve feridos no roubo. O caso foi encaminhado ao 38º Departamento de Polícia (DP).
Assaltantes levaram até marmitas dos passageiros do veículo que tinha como destino final a Central do Brasil
Pelo menos 60 pessoas foram roubadas por cinco homens armados na manhã de quinta-feira (9/09) durante trajeto de uma linha de ônibus que saiu de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, com destino à Central do Brasil, no centro do Rio de Janeiro. De acordo com a Polícia Civil, os criminosos levaram celulares, dinheiro, cartões e até marmitas dos passageiros. As fardas de três policiais militares também foram roubadas.
Os criminosos conseguiram descer na Avenida Brasil, de onde fugiram. Ninguém foi preso e não houve feridos no roubo. O caso foi encaminhado ao 38º Departamento de Polícia (DP).
sábado, 7 de agosto de 2010
PAI ESTOU COM FOME
Nunca esqueça: nada acontece por acaso!!
Ricardinho
não agüentou o cheiro bom do pão e falou:
- Pai, tô com fome!!!
O pai, Agenor , sem ter um tostão no bolso, caminhando desde muito cedo em busca de um trabalho, olha com os olhos marejados para o filho e pede mais um pouco de paciência....
- Mas pai, desde ontem não comemos nada, eu tô com muita fome, pai!!!
Envergonhado, triste e humilhado em seu coração de pai, Agenor pede para o filho aguardar na calçada enquanto entra na padaria a sua frente...
Ao entrar dirige-se a um homem no balcão:
- Meu senhor, estou com meu filho de apenas 6 anos na porta, com muita fome, não tenho nenhum tostão, pois sai cedo para buscar um emprego e nada encontrei, eu lhe peço que em nome de Jesus me forneça um pão para que eu possa matar a fome desse menino, em troca posso varrer o chão de seu estabelecimento, lavar os pratos e copos, ou outro serviço que o senhor precisar!!!
Amaro , o dono da padaria estranha aquele homem de semblante calmo e sofrido, pedir comida em troca de trabalho e pede para que ele chame o filho...
Agenor pega o filho pela mão e apresenta-o a Amaro, que imediatamente pede que os dois sentem-se junto ao balcão, onde manda servir dois pratos de comida do famoso PF (Prato Feito) - arroz, feijão, bife e ovo...
Para Ricardinho era um sonho, comer após tantas horas na rua...
Para Agenor , uma dor a mais, já que comer aquela comida maravilhosa fazia-o lembrar-se da esposa e mais dois filhos que ficaram em casa apenas com um punhado de fubá....
Grossas lágrimas desciam dos seus olhos já na primeira garfada...
A satisfação de ver seu filho devorando aquele prato simples como se fosse um manjar dos deuses, e lembrança de sua pequena família em casa, foi demais para seu coração tão cansado de mais de 2 anos de desemprego, humilhações e necessidades...
Amaro se aproxima de Agenor e percebendo a sua emoção, brinca para relaxar:
- Ô Maria!!! Sua comida deve estar muito ruim... Olha o meu amigo está até chorando de tristeza desse bife, será que é sola de sapato?!?!
Imediatamente, Agenor sorri e diz que nunca comeu comida tão apetitosa, e que agradecia a Deus por ter esse prazer...
Amaro pede então que ele sossegue seu coração, que almoçasse em paz e depois conversariam sobre trabalho...
Mais confiante, Agenor enxuga as lágrimas e começa a almoçar, já que sua fome já estava nas costas...
Após o almoço, Amaro convida Agenor para uma conversa nos fundos da padaria, onde havia um pequeno escritório...
Agenor conta então que há mais de 2 anos havia perdido o emprego e desde então, sem uma especialidade profissional, sem estudos, ele estava vivendo de
pequenos 'biscates aqui e acolá', mas que há 2 meses não recebia nada...
Amaro resolve então contratar Agenor para serviços gerais na padaria, e penalizado, faz para o homem uma cesta básica com alimentos para pelo menos 15 dias...
Agenor com lágrimas nos olhos agradece a confiança daquele homem e marca para o dia seguinte seu início no trabalho...
Ao chegar em casa com toda aquela 'fartura', Agenor é um novo homem sentia esperanças, sentia que sua vida iria tomar novo impulso...
Deus estava lhe abrindo mais do que uma porta, era toda uma esperança de dias melhores...
No dia seguinte, às 5 da manhã, Agenor estava na porta da padaria ansioso para iniciar seu novo trabalho...
Amaro chega logo em seguida e sorri para aquele homem que nem ele sabia porque estava ajudando...
Tinham a mesma idade, 32 anos, e histórias diferentes, mas algo dentro dele
chamava-o para ajudar aquela pessoa...
E, ele não se enganou - durante um ano, Agenor foi o mais dedicado trabalhador daquele estabelecimento, sempre honesto e extremamente zeloso com seus deveres...
Um dia, Amaro chama Agenor para uma conversa e fala da escola que abriu vagas para a alfabetização de adultos um quarteirão acima da padaria, e que ele fazia questão que Agenor fosse estudar....
Agenor nunca esqueceu seu primeiro dia de aula: a mão trêmula nas primeiras letras e a emoção da primeira carta...
Doze anos se passam desde aquele primeiro dia de aula...
Vamos encontrar o Dr. Agenor Baptista de Medeiros , advogado, abrindo seu escritório para seu cliente, e depois outro, e depois mais outro...
Ao meio dia ele desce para um café na padaria do amigo Amaro, que fica impressionado em ver o 'antigo funcionário' tão elegante em seu primeiro terno...
Mais dez anos se passam, e agora o Dr. Agenor Baptista, já com uma clientela que mistura os mais necessitados que não podem pagar, e os mais abastados que o pagam muito bem, resolve criar uma Instituição que oferece aos desvalidos da sorte, que andam pelas ruas, pessoas desempregadas e carentes de todos os tipos, um prato de comida diariamente na hora do almoço...
Mais de 200 refeições são servidas diariamente naquele lugar que é administrado pelo seu filho , o agora nutricionista Ricardo Baptista...
Tudo mudou, tudo passou, mas a amizade daqueles dois homens, Amaro e Agenor impressionava a todos que conheciam um pouco da história de cada um...
Contam que aos 82 anos os dois faleceram no mesmo dia, quase que a mesma hora, morrendo placidamente com um sorriso de dever cumprido...
Ricardinho , o filho mandou gravar na frente da 'Casa do Caminho', que seu pai fundou com tanto carinho:
'Um dia eu tive fome, e você me alimentou. Um dia eu estava sem esperanças e você me deu um caminho. Um dia acordei sozinho, e você me deu Deus, e isso não tem preço.. Que Deus habite em seu coração e alimente sua alma.. E, que te sobre o pão da misericórdia para estender a quem precisar!!!'
(História verídica)
Se acharem que vale a pena repassem, pois nunca é tarde para começar e sempre é cedo para parar!!!
Que Deus te abençoe poderosamente lhe concedendo o dom da caridade e da fé. Amém
Ricardinho
não agüentou o cheiro bom do pão e falou:
- Pai, tô com fome!!!
O pai, Agenor , sem ter um tostão no bolso, caminhando desde muito cedo em busca de um trabalho, olha com os olhos marejados para o filho e pede mais um pouco de paciência....
- Mas pai, desde ontem não comemos nada, eu tô com muita fome, pai!!!
Envergonhado, triste e humilhado em seu coração de pai, Agenor pede para o filho aguardar na calçada enquanto entra na padaria a sua frente...
Ao entrar dirige-se a um homem no balcão:
- Meu senhor, estou com meu filho de apenas 6 anos na porta, com muita fome, não tenho nenhum tostão, pois sai cedo para buscar um emprego e nada encontrei, eu lhe peço que em nome de Jesus me forneça um pão para que eu possa matar a fome desse menino, em troca posso varrer o chão de seu estabelecimento, lavar os pratos e copos, ou outro serviço que o senhor precisar!!!
Amaro , o dono da padaria estranha aquele homem de semblante calmo e sofrido, pedir comida em troca de trabalho e pede para que ele chame o filho...
Agenor pega o filho pela mão e apresenta-o a Amaro, que imediatamente pede que os dois sentem-se junto ao balcão, onde manda servir dois pratos de comida do famoso PF (Prato Feito) - arroz, feijão, bife e ovo...
Para Ricardinho era um sonho, comer após tantas horas na rua...
Para Agenor , uma dor a mais, já que comer aquela comida maravilhosa fazia-o lembrar-se da esposa e mais dois filhos que ficaram em casa apenas com um punhado de fubá....
Grossas lágrimas desciam dos seus olhos já na primeira garfada...
A satisfação de ver seu filho devorando aquele prato simples como se fosse um manjar dos deuses, e lembrança de sua pequena família em casa, foi demais para seu coração tão cansado de mais de 2 anos de desemprego, humilhações e necessidades...
Amaro se aproxima de Agenor e percebendo a sua emoção, brinca para relaxar:
- Ô Maria!!! Sua comida deve estar muito ruim... Olha o meu amigo está até chorando de tristeza desse bife, será que é sola de sapato?!?!
Imediatamente, Agenor sorri e diz que nunca comeu comida tão apetitosa, e que agradecia a Deus por ter esse prazer...
Amaro pede então que ele sossegue seu coração, que almoçasse em paz e depois conversariam sobre trabalho...
Mais confiante, Agenor enxuga as lágrimas e começa a almoçar, já que sua fome já estava nas costas...
Após o almoço, Amaro convida Agenor para uma conversa nos fundos da padaria, onde havia um pequeno escritório...
Agenor conta então que há mais de 2 anos havia perdido o emprego e desde então, sem uma especialidade profissional, sem estudos, ele estava vivendo de
pequenos 'biscates aqui e acolá', mas que há 2 meses não recebia nada...
Amaro resolve então contratar Agenor para serviços gerais na padaria, e penalizado, faz para o homem uma cesta básica com alimentos para pelo menos 15 dias...
Agenor com lágrimas nos olhos agradece a confiança daquele homem e marca para o dia seguinte seu início no trabalho...
Ao chegar em casa com toda aquela 'fartura', Agenor é um novo homem sentia esperanças, sentia que sua vida iria tomar novo impulso...
Deus estava lhe abrindo mais do que uma porta, era toda uma esperança de dias melhores...
No dia seguinte, às 5 da manhã, Agenor estava na porta da padaria ansioso para iniciar seu novo trabalho...
Amaro chega logo em seguida e sorri para aquele homem que nem ele sabia porque estava ajudando...
Tinham a mesma idade, 32 anos, e histórias diferentes, mas algo dentro dele
chamava-o para ajudar aquela pessoa...
E, ele não se enganou - durante um ano, Agenor foi o mais dedicado trabalhador daquele estabelecimento, sempre honesto e extremamente zeloso com seus deveres...
Um dia, Amaro chama Agenor para uma conversa e fala da escola que abriu vagas para a alfabetização de adultos um quarteirão acima da padaria, e que ele fazia questão que Agenor fosse estudar....
Agenor nunca esqueceu seu primeiro dia de aula: a mão trêmula nas primeiras letras e a emoção da primeira carta...
Doze anos se passam desde aquele primeiro dia de aula...
Vamos encontrar o Dr. Agenor Baptista de Medeiros , advogado, abrindo seu escritório para seu cliente, e depois outro, e depois mais outro...
Ao meio dia ele desce para um café na padaria do amigo Amaro, que fica impressionado em ver o 'antigo funcionário' tão elegante em seu primeiro terno...
Mais dez anos se passam, e agora o Dr. Agenor Baptista, já com uma clientela que mistura os mais necessitados que não podem pagar, e os mais abastados que o pagam muito bem, resolve criar uma Instituição que oferece aos desvalidos da sorte, que andam pelas ruas, pessoas desempregadas e carentes de todos os tipos, um prato de comida diariamente na hora do almoço...
Mais de 200 refeições são servidas diariamente naquele lugar que é administrado pelo seu filho , o agora nutricionista Ricardo Baptista...
Tudo mudou, tudo passou, mas a amizade daqueles dois homens, Amaro e Agenor impressionava a todos que conheciam um pouco da história de cada um...
Contam que aos 82 anos os dois faleceram no mesmo dia, quase que a mesma hora, morrendo placidamente com um sorriso de dever cumprido...
Ricardinho , o filho mandou gravar na frente da 'Casa do Caminho', que seu pai fundou com tanto carinho:
'Um dia eu tive fome, e você me alimentou. Um dia eu estava sem esperanças e você me deu um caminho. Um dia acordei sozinho, e você me deu Deus, e isso não tem preço.. Que Deus habite em seu coração e alimente sua alma.. E, que te sobre o pão da misericórdia para estender a quem precisar!!!'
(História verídica)
Se acharem que vale a pena repassem, pois nunca é tarde para começar e sempre é cedo para parar!!!
Que Deus te abençoe poderosamente lhe concedendo o dom da caridade e da fé. Amém
domingo, 28 de março de 2010
Civilização Inca - UM POVO SEM FOME
Civilização Inca - História da Civilização Inca
Os Incas foram um dos povos mais civilizados da América.Compunham, principalmente as tribos Quéchuas, Aymará, Yunka, etc, que formavam, segundo os espanhóis o Império dos Incas, denominação derivada da família reinante pertencente à tribo dos Quéchuas, a principal do império. Habitavam a região hoje ocupada pelo Equador, Peru, norte do Chile, Oeste da Bolívia e noroeste da Argentina. Mais de dez milhões de cidadãos haviam se fundido nesta unidade política e cultural que era de elevado nível. Fisicamente os Incas eram de pequena estatura, pele morena, variando do moreno claro ao escuro, cabelos pretos e lisos quase imberbes. Quanto a organização social e política segundo o testemunho espanhol, eles eram perfeitos, possuidores de espírito comunitários.
Adoravam o Sol reencarnado em cada Inca ou imperador, que era filho do Grande Sol, deste modo o Imperador era considerado deus dentre o povo. Os mortos eram sepultados não somente em templos, mas também em torres túmulos e covos (denominados Chullpas). Os templos dos Incas não eram mais do que habitações de maiores dimensões e eram construídas as superfícies da terra. Um dos aspectos que mais se salientam na cultura incaica é a solução que deram para o problema das comunicações, que apresentavam sérias dificuldades na região dos Andes. Estabeleceram uma complexa rede de caminhos e um corpo permanente de mensageiros (Tiasques) encarregados de transmitirem as noticias. Praticamente a agricultura que havia atingido entre eles, notável desenvolvimento, demonstrado pelas obras de irrigação.
Os Incas empregavam fartamente os metais, cobre, bronze, ouro, prata, o que despertou a cobiça dos conquistadores.
Em 1553, o país foi conquistado por Pizarro e submetido à coroa espanhola. A cultura Inca foi totalmente destruída e, na atualidade restam apenas ruínas de seus grandiosos monumentos templos e palácios.
Durante muito tempo a historiografia abordou o Estado inca como um "paraíso perdido", no qual inexistia a fome, a exploração e a violência. Estes fatos incentivaram a imaginação dos novelistas, estudiosos e pesquisadores, que procuraram descobrir influências de extraterrestres ou a construção do primeiro Estado comunista em terras americanas.
Características
O estado mantinha um sistema tributário que cobrava tributos para manter os velhos e os doentes, e para fornecer alimentos nas épocas de má colheita, com um soberano, que a ideologia inca dizia ser o filho do sol (o sol lhe outorgava proteção divina e ordem social).
Realmente é extraordinário que uma civilização tenha se estendido por 4000 quilômetros ao longo da Cordilheira dos Andes sem dispor da roda nem duma boa malha hidroviária para transportar os excedentes agrícolas, que foi o que causou o aparecimento das civilizações em outras partes, pois os Incas com suas técnicas de engenharia fizeram obras que seriam uma árdua tarefa mesmo para a engenharia moderna .
Os incas eram construtores exímios. Sem o auxílio da argamassa, edificaram paredes tão perfeitamente ajustadas que era impossível introduzir a lâmina de uma faca entre as pedras . Milhares quilômetros de estradas ligavam as quatro províncias ou confins como as chamavam, à Cuzco a capital, era superior a tudo o que existia à data na Europa. Embora o pavimento de pedras lisas pudesse ter sido concebido para veículos, numa sociedade sem cavalos e sem roda todos andavam a pé. Estas estradas transpunham rios por meio de pontes pênseis, eram tão sólidas que muitas delas foram usadas ainda no século XX .
Uma sociedade que tributava as pessoas e não a produção devia possuir um sofisticado esquema de controle. O Estado inca conhecia a quantidade de homens, mulheres e crianças de cada ayllu, conhecia o número de indivíduos com que podia contar para montar um exército sem afetar a produção, sabia quanta mão-de-obra era necessária para construir uma ponte e onde requisitá-la. Sabia das necessidades de alimento, roupas e armas para sustentar os mitamáes.
Quipo
O segredo dessa contabilidade sem computadores são os quipos, logos cordões aos quais eram amarrados uma multiplicidade de cordõeszinhos, onde se fazia diferentes tipos de nós, como sinais. Os quipucamayucs eram responsáveis por essa contabilidade e caso cometessem qualquer erro ou na confecção ou na leitura, pagavam com a morte.
RESUMO da História Inca
20.000 - 100 a .C
Há cerca de 20.000 anos atrás, tribos de caçadores que tinham atravessado o estreito de Bering dirigiam-se para o sul e acabaram por atingir a terra que nós atualmente chamamos de América do Sul. Por volta do ano 5.000 a.C., habitantes das regiões montanhosas começaram a cultivar alimentos e começaram a viver em povoados permanentes.
Cerca do ano 2.000 a.C., os pescadores que habitavam a costa começaram igualmente a construir habitações permanentes. Mais ou menos no ano 1.200 a.C., os habitantes da zona costeira já cultivavam o milho, teciam roupas de boa qualidade e faziam cerâmica.
Ao mesmo tempo surgiu na zona montanhosa a primeira civilização importante denominada Chavin. Por volta do ano 100 a.C., a costa nordeste era um reino cuja a capital era Moche, e no Sul existia outro reino com capital em Nazca.
100 a.C. - 1.100 d.C.
A primeira civilização que floreceu na região montanhosa tinha sua capital em Tiahuanaku . Cerca de 800 d.C. os habitantes de tiahuanaku já tinham conquistado a costa meridional. No ano 1000 d.C., o Peru era um conjunto de tribos guerreiras sem chefes poderosos. Foi a época do império dos Chimus também reinar.
1100 - 1430 d.C.
O Inca Manco Capac tinha se estabelecido em Cuzco. Entretanto, as tribos provenientes do norte haviam formado o reino Chimu na costa setentrional. Construíram grandes cidades, segundo um plano retangular, dotadas de grandes muros de pedra.
Em Cuzco, os Incas tornaram-se mais poderosos. O filho de Manco, Sinchi Roca, tal como seu pai, governava metade de Cuzco e nada fez para tornar a família mais poderosa. Encorajou a extração de minerais e a tecelagem e foi um grande patrono da agricultura. Mas seu filho Capac Yuapanki, nascido quando Sinchi Roca já era velho: expandiu o território Inca a Cuzco inteira.
O Inca Roca foi o primeiro a ser denominado Sapa Inca (o Inca Supremo). Grande parte do seu reinado passou-se em disputas constantes com as tribos Chancas. O Inca Roca sucedeu Yahuar Huacac que foi ameaçado por uma aliança das tribos montanhosas. Seu filho, Wiracocha, também sofreu ataques, mas conseguiu repelir os invasores. No entanto acabou por fugir de Cuzco quando as tribos Chancas puseram em perigo seu reino.
1438 - 1493 d.C.
O filho de Wiracocha, Inca Yuapanki, sucedeu-lhe no trono. Venceu as tribos Chancas, matou seu rei, e para fortalecer sua posição na zona montanhosa, propôs paz às outras tribos e ofereceu mulheres incas aos seus lideres. Reconstruiu Cuzco, tornando-a capital, e organizou um sistema governativo com funcionários incas, que chefiavam cada tribo como um grupo de cidadãos equiparados dentro do império.
Quando seu filho, Topa Inca Yuapanki, atingiu os 15 anos o enviou para o território do norte para aumentar suas terras. A seguir anexou seu império ao Chimu após algumas batalhas psicológicas, e o tornou mas uma parte do Império Inca.
Quando Inca Yuapanki se retirou, seu herdeiro ocupou o trono. Topa Inca conquistou as tribos que habitavam as florestas amazônicas, venceu tribos rebeldes em Torno do Lago Titicaca e levou seu império para o Sul até o Chile. Morreu em Cuzco 1493 d.C..
1493 - 1572 d.C.
Huayna Capac subiu ao trono ainda muito jovem. Não havia problema quanto ao seu sucessor. Casara-se com uma princesa de Quito e ela lhe dera um filho, Atahuallpa.
Mas os se tornar Sapa Inca casou-se com sua irmã e tiveram um filho, Huáscar.
Ao sul , uma tribo invasora atacou a fronteira do Peru com o Chile. Entre eles encontravam-se alguns espanhóis, que espalharam uma epidemia de varíola. A epidemia devastou aquela região acabando por matar Huayna Capac, em 1525.
O Inca Huáscar subiu ao trono, mas Huayna Capac declarou que quito deveria ser herdada por Atahuallpa. Em 1532, iniciou-se uma guerra civil entre os dois meio-irmãos. Atahuallpa acabou por aprisionar o pais inteiro e aprisionou Huáscar.
No mesmo ano Francisco Pizarro atingiu o peru com seu pequeno exército espanhol. Durante os primeiros meses foram gradualmente conquistando a zona litorânea, acabando por se defrontar com todo o exército Inca e, por meio de uma armadilha, conseguiram capturar Atahuallpa. Dois anos depois os espanhóis haviam conquistado todo o tawantsuyo.
Os Incas foram um dos povos mais civilizados da América.Compunham, principalmente as tribos Quéchuas, Aymará, Yunka, etc, que formavam, segundo os espanhóis o Império dos Incas, denominação derivada da família reinante pertencente à tribo dos Quéchuas, a principal do império. Habitavam a região hoje ocupada pelo Equador, Peru, norte do Chile, Oeste da Bolívia e noroeste da Argentina. Mais de dez milhões de cidadãos haviam se fundido nesta unidade política e cultural que era de elevado nível. Fisicamente os Incas eram de pequena estatura, pele morena, variando do moreno claro ao escuro, cabelos pretos e lisos quase imberbes. Quanto a organização social e política segundo o testemunho espanhol, eles eram perfeitos, possuidores de espírito comunitários.
Adoravam o Sol reencarnado em cada Inca ou imperador, que era filho do Grande Sol, deste modo o Imperador era considerado deus dentre o povo. Os mortos eram sepultados não somente em templos, mas também em torres túmulos e covos (denominados Chullpas). Os templos dos Incas não eram mais do que habitações de maiores dimensões e eram construídas as superfícies da terra. Um dos aspectos que mais se salientam na cultura incaica é a solução que deram para o problema das comunicações, que apresentavam sérias dificuldades na região dos Andes. Estabeleceram uma complexa rede de caminhos e um corpo permanente de mensageiros (Tiasques) encarregados de transmitirem as noticias. Praticamente a agricultura que havia atingido entre eles, notável desenvolvimento, demonstrado pelas obras de irrigação.
Os Incas empregavam fartamente os metais, cobre, bronze, ouro, prata, o que despertou a cobiça dos conquistadores.
Em 1553, o país foi conquistado por Pizarro e submetido à coroa espanhola. A cultura Inca foi totalmente destruída e, na atualidade restam apenas ruínas de seus grandiosos monumentos templos e palácios.
Durante muito tempo a historiografia abordou o Estado inca como um "paraíso perdido", no qual inexistia a fome, a exploração e a violência. Estes fatos incentivaram a imaginação dos novelistas, estudiosos e pesquisadores, que procuraram descobrir influências de extraterrestres ou a construção do primeiro Estado comunista em terras americanas.
Características
O estado mantinha um sistema tributário que cobrava tributos para manter os velhos e os doentes, e para fornecer alimentos nas épocas de má colheita, com um soberano, que a ideologia inca dizia ser o filho do sol (o sol lhe outorgava proteção divina e ordem social).
Realmente é extraordinário que uma civilização tenha se estendido por 4000 quilômetros ao longo da Cordilheira dos Andes sem dispor da roda nem duma boa malha hidroviária para transportar os excedentes agrícolas, que foi o que causou o aparecimento das civilizações em outras partes, pois os Incas com suas técnicas de engenharia fizeram obras que seriam uma árdua tarefa mesmo para a engenharia moderna .
Os incas eram construtores exímios. Sem o auxílio da argamassa, edificaram paredes tão perfeitamente ajustadas que era impossível introduzir a lâmina de uma faca entre as pedras . Milhares quilômetros de estradas ligavam as quatro províncias ou confins como as chamavam, à Cuzco a capital, era superior a tudo o que existia à data na Europa. Embora o pavimento de pedras lisas pudesse ter sido concebido para veículos, numa sociedade sem cavalos e sem roda todos andavam a pé. Estas estradas transpunham rios por meio de pontes pênseis, eram tão sólidas que muitas delas foram usadas ainda no século XX .
Uma sociedade que tributava as pessoas e não a produção devia possuir um sofisticado esquema de controle. O Estado inca conhecia a quantidade de homens, mulheres e crianças de cada ayllu, conhecia o número de indivíduos com que podia contar para montar um exército sem afetar a produção, sabia quanta mão-de-obra era necessária para construir uma ponte e onde requisitá-la. Sabia das necessidades de alimento, roupas e armas para sustentar os mitamáes.
Quipo
O segredo dessa contabilidade sem computadores são os quipos, logos cordões aos quais eram amarrados uma multiplicidade de cordõeszinhos, onde se fazia diferentes tipos de nós, como sinais. Os quipucamayucs eram responsáveis por essa contabilidade e caso cometessem qualquer erro ou na confecção ou na leitura, pagavam com a morte.
RESUMO da História Inca
20.000 - 100 a .C
Há cerca de 20.000 anos atrás, tribos de caçadores que tinham atravessado o estreito de Bering dirigiam-se para o sul e acabaram por atingir a terra que nós atualmente chamamos de América do Sul. Por volta do ano 5.000 a.C., habitantes das regiões montanhosas começaram a cultivar alimentos e começaram a viver em povoados permanentes.
Cerca do ano 2.000 a.C., os pescadores que habitavam a costa começaram igualmente a construir habitações permanentes. Mais ou menos no ano 1.200 a.C., os habitantes da zona costeira já cultivavam o milho, teciam roupas de boa qualidade e faziam cerâmica.
Ao mesmo tempo surgiu na zona montanhosa a primeira civilização importante denominada Chavin. Por volta do ano 100 a.C., a costa nordeste era um reino cuja a capital era Moche, e no Sul existia outro reino com capital em Nazca.
100 a.C. - 1.100 d.C.
A primeira civilização que floreceu na região montanhosa tinha sua capital em Tiahuanaku . Cerca de 800 d.C. os habitantes de tiahuanaku já tinham conquistado a costa meridional. No ano 1000 d.C., o Peru era um conjunto de tribos guerreiras sem chefes poderosos. Foi a época do império dos Chimus também reinar.
1100 - 1430 d.C.
O Inca Manco Capac tinha se estabelecido em Cuzco. Entretanto, as tribos provenientes do norte haviam formado o reino Chimu na costa setentrional. Construíram grandes cidades, segundo um plano retangular, dotadas de grandes muros de pedra.
Em Cuzco, os Incas tornaram-se mais poderosos. O filho de Manco, Sinchi Roca, tal como seu pai, governava metade de Cuzco e nada fez para tornar a família mais poderosa. Encorajou a extração de minerais e a tecelagem e foi um grande patrono da agricultura. Mas seu filho Capac Yuapanki, nascido quando Sinchi Roca já era velho: expandiu o território Inca a Cuzco inteira.
O Inca Roca foi o primeiro a ser denominado Sapa Inca (o Inca Supremo). Grande parte do seu reinado passou-se em disputas constantes com as tribos Chancas. O Inca Roca sucedeu Yahuar Huacac que foi ameaçado por uma aliança das tribos montanhosas. Seu filho, Wiracocha, também sofreu ataques, mas conseguiu repelir os invasores. No entanto acabou por fugir de Cuzco quando as tribos Chancas puseram em perigo seu reino.
1438 - 1493 d.C.
O filho de Wiracocha, Inca Yuapanki, sucedeu-lhe no trono. Venceu as tribos Chancas, matou seu rei, e para fortalecer sua posição na zona montanhosa, propôs paz às outras tribos e ofereceu mulheres incas aos seus lideres. Reconstruiu Cuzco, tornando-a capital, e organizou um sistema governativo com funcionários incas, que chefiavam cada tribo como um grupo de cidadãos equiparados dentro do império.
Quando seu filho, Topa Inca Yuapanki, atingiu os 15 anos o enviou para o território do norte para aumentar suas terras. A seguir anexou seu império ao Chimu após algumas batalhas psicológicas, e o tornou mas uma parte do Império Inca.
Quando Inca Yuapanki se retirou, seu herdeiro ocupou o trono. Topa Inca conquistou as tribos que habitavam as florestas amazônicas, venceu tribos rebeldes em Torno do Lago Titicaca e levou seu império para o Sul até o Chile. Morreu em Cuzco 1493 d.C..
1493 - 1572 d.C.
Huayna Capac subiu ao trono ainda muito jovem. Não havia problema quanto ao seu sucessor. Casara-se com uma princesa de Quito e ela lhe dera um filho, Atahuallpa.
Mas os se tornar Sapa Inca casou-se com sua irmã e tiveram um filho, Huáscar.
Ao sul , uma tribo invasora atacou a fronteira do Peru com o Chile. Entre eles encontravam-se alguns espanhóis, que espalharam uma epidemia de varíola. A epidemia devastou aquela região acabando por matar Huayna Capac, em 1525.
O Inca Huáscar subiu ao trono, mas Huayna Capac declarou que quito deveria ser herdada por Atahuallpa. Em 1532, iniciou-se uma guerra civil entre os dois meio-irmãos. Atahuallpa acabou por aprisionar o pais inteiro e aprisionou Huáscar.
No mesmo ano Francisco Pizarro atingiu o peru com seu pequeno exército espanhol. Durante os primeiros meses foram gradualmente conquistando a zona litorânea, acabando por se defrontar com todo o exército Inca e, por meio de uma armadilha, conseguiram capturar Atahuallpa. Dois anos depois os espanhóis haviam conquistado todo o tawantsuyo.
sábado, 27 de março de 2010
Situação da (in)segurança alimentar no Brasil
Situação da (in)segurança alimentar no Brasil
Tasso de Sousa Leite1, José Paulo Pietraffesa2
RESUMO: A partir da definição apresentada pelo Brasil na Cúpula Mundial d Alimentação, em 1996, que vê a segurança alimentar e nutricional como um direito humano básico e a insegurança alimentar (fome) como violação desse direito, procura-se neste trabalho traçar um panorama da fome e pobreza no Brasil.
O conceito de segurança alimentar foi definido de forma bastante clara no documento oficial do Brasil, apresentado na Cúpula Mundial da Alimentação em 1996. O documento sistematiza o conceito da seguinte forma:
"Segurança Alimentar e Nutricional significa garantir a todos acesso a alimentos básicos de qualidade, em quantidade suficiente, de modo permanente e sem comprometer o acesso a outras necessidades essenciais, com base em práticas alimentares saudáveis. Contribuindo, assim, para uma existência digna em um contexto de desenvolvimento integral da pessoa humana".
Essa definição implica uma abordagem da segurança alimentar como um direito humano básico e da insegurança alimentar (fome) como violação desse direito. Com base nessa definição, procura-se neste trabalho traçar um breve panorama da fome e pobreza no Brasil. O trabalho está organizado da seguinte forma: o item 2 apresenta uma discussão sobre os principais conceitos utilizados neste trabalho. O item 3 discute, com base no "Relatório da insegurança alimentar no mundo" (SOFI 2000), do Fundo das Nações Unidas Para a Agricultura e Alimentação, (FAO), a relação entre fome e subnutrição e a disponibilidade de alimentos. O item 4 apresenta os números da pobreza e indigência no Brasil, com base nos vários estudos que utilizam a abordagem da insuficiência de renda. O item 5 discute as causas estruturais da fome e da pobreza no Brasil (concentração de riquezas). Por fim, no item 6, apresentam-se as considerações finais.
REFERÊNCIAS CONCEITUAIS E METODOLÓGICAS
A discussão acerca do problema da segurança alimentar compreende a utilização de pelo menos três conceitos: pobreza, fome e desnutrição. De acordo com Monteiro, apud Takcgi, Silva e Grossi (200, 1 p. 17), há uma estreita relação entre esses conceitos, mas cada um possui uma definição própria. A pobreza ocorre quando, por falta ou insuficiência de renda, as pessoas não conseguem ter acesso aos meios de subsistência básicos, tais como alimentação, saúde, habitação, vestuário e educação, entre outros elementos necessários para uma vida com o mínimo de qualidade. A fome ocorre quando as pessoas não conseguem obter uma alimentação diária que supra suas necessidades de energia requeridas para a manutenção de seu organismo, considerando as várias atividades físicas normais do ser humano. A desnutrição, que geralmente acompanha as situações de fome e pobreza, decorre da inadequação alimentar tanto nos aspectos quantitativos (energéticos) quanto nos qualitativos (nutrientes).
Isso implica dizer que a fome não é a única causa da desnutrição. Quando uma determinada comunidade é acometida por fome, inevitavelmente acontecerá a desnutrição. Mas é bastante comum a ocorrência da desnutrição em pessoas que possuem suas necessidades energéticas atendidas, ou seja, que não "passam fome". Especialmente entre a população infantil, a desnutrição geralmente ocorre devido a uma inadequação qualitativa da dieta, agravada pelo desmame precoce, e à precariedade das condições sanitárias. Monteiro (1995) esclarece, ainda, que pode haver situações de generalizada pobreza em uma determinada localidade (devido à precariedade do acesso à moradia, educação, saneamento básico), sem que a sua população passe fome.
Pode-se também adicionar uma outra distinção conceitual importante: pobreza absoluta e pobreza relativa. O significado do primeiro conceito é similar ao conceito de pobreza visto anteriormente. O segundo se refere às situações de desigualdade social e à concentração da riqueza. Em termos hipotéticos uma sociedade pode apresentar elevados níveis de desigualdade e baixos índices de pobreza (absoluta); ou ainda, pode ser uma sociedade relativamente igualitária sem que a população tenha as suas necessidades básicas atendidas. No caso do Brasil convive-se com os dois tipos de pobreza, e ambas apresentam níveis absurdamente elevados. Mais do que isso, há uma estreita relação de causalidade entre elas, ou seja, a desigualdade na distribuição de riquezas é fator determinante dos altos índices de pobreza.
Essa distinção conceitual se reflete também em várias formas de se quantificar o problema. De forma geral, pode-se agrupar esses métodos em duas grandes linhas. A primeira se baseia na mensuração das necessidades básicas e utiliza os chamados métodos diretos. Nessa linha, desenvolvem-se pesquisas sobre a adequação entre o consumo de calorias e proteínas e as características físicas das pessoas (como altura e peso), considerando os tipos de atividades físicas que elas desempenham. Os indicadores mais utilizados são o consumo calórico e os dados antropométricos.
A outra linha de pesquisa prioriza os chamados métodos indiretos (ou "métodos da insuficiência de renda"). As pesquisas desenvolvidas com essa orientação metodológica pressupõem que uma alimentação adequada ou a satisfação de outras necessidades básicas podem ser inferidas a partir da mensuração da renda familiar.
Não há, evidentemente, nenhuma incompatibilidade entre essas duas linhas de pesquisa. No entanto, devido ao fato de serem em maior número e mais atuais, priorizaremos na exposição a seguir as pesquisas que se baseiam nos métodos indiretos. Além disso, acreditamos que há bastante evidências de que a insuficiência de renda é fator determinante da situação de fome e pobreza de grande parte da população brasileira. A esse respeito vale citar as palavras de (Takagi, Silva e Grossi (2001):
"No caso brasileiro, não há dúvida que a grande causa da falta de acesso aos alimentos, bem como da desnutrição infantil, é o baixo nível de renda. A Pesquisa Nacional de Saúde e Nutrição (PNSN) de 1989 constatou que ligeiros acréscimos na renda domiciliar traduzem-se em melhor desempenho no crescimento da população até 25 anos de idade. Hoffmann (1995) também constatou correlação negativa entre prevalência de retardo no crescimento na infância e o rendimento mediano das famílias destas crianças."
As estimativas do SOFI 2000 para o Brasil estão resumidas no quadro abaixo.
Disponibilidade de alimentos
Consumo recomendado
Consumo Médio
Déficit de calorias
Total de pessoas
Proporção de subnutridos
2.960
1.900
1.659
250
15,9
10% da
KPD*
KPD*
KPD*
KPD*
milhões
população
*(KPD = kcal/pessoa/dia)
FOME E DISPONIBILIDADE DE ALIMENTOS
A FAO é responsável pela realização e divulgação de um dos estudos mais abrangentes sobre (in) segurança alimentar no mundo. Um dos objetivos centrais do relatório "Estado da insegurança alimentar no mundo (SOFI)" é monitorar o cumprimento das metas de redução da pobreza e desnutrição traçadas pelos 186 países presentes na Cúpula Mundial da Alimentação, realizada em Roma em 1996.
Uma das principais constatações da segunda edição do Relatório da FAO, o SOFI 2000, é que a situação da insegurança alimentar no mundo praticamente não mudou desde o primeiro relatório. Segundo o SOFI 2000, a estimativa do número de pessoas subnutridas no período 1996-1998, é praticamente a mesma do período anterior (1995-1997): 826 milhões de pessoas subnutridas no mundo. Desse total, 792 milhões vivem nos países em desenvolvimento e 34 milhões nos países desenvolvidos. Isso mostra que ainda estamos longe de cumprir a meta da Cúpula Mundial, de reduzir pela metade o número de pobres até 2015. Segundo o diretor-geral da FAO, para alcançar essa meta, a taxa de redução do número de pobres deveria sair dos atuais 8 milhões de pessoas por ano para, no mínimo, 20 milhões de pessoas por ano, até 2015 (SOFI, 2000).
O método utilizado pela FAO para estimar o contingente de subnutridos em um país baseia-se nos seguintes critérios: calcula-se, com base nos dados sobre produção, comércio e estoques de alimentos, a disponibilidade de calorias per capita; estima-se a necessidade calórica da população, considerando a diferença entre os diversos grupos (idade, gênero etc.); e, por fim, combinam-se esses dados com informações sobre o consumo de alimentos e a distribuição de renda. Consideram-se subnutridos aqueles que consomem menos calorias que o mínimo estabelecido.
Como já era esperado, o estudo revela que a disponibilidade de alimentos é bastante superior às necessidades mínimas estabelecidas para o caso brasileiro, mas ainda assim o país possui cerca de 16 milhões de pessoas subnutridas. A partir da última edição do Relatório, a FAO começou a estimar a gravidade da fome, através do cálculo do déficit de calorias. No Brasil as pessoas consideradas subnutridas consomem em média 1.659 calorias por dia e necessitam, portanto, de cerca de 250 kcal/pessoa/dia para atingir o consumo mínimo recomendado. Nos países desenvolvidos esse déficit é de 130 kcal/pessoa/dia, enquanto nos países onde a situação de fome é mais grave o déficit é de 300 kcal/pessoa/dia.
Cabe ressaltar que uma das maiores virtudes do Relatório da FAO, a sua amplitude, constitui-se também em um de seus pontos fracos. A abrangência mundial do estudo, que é uma condição para comparações internacionais, o torna pouco adequado para uma avaliação mais aprofundada da realidade de cada país. Alguns estudiosos do tema consideram que certas limitações metodológicas, como a não-consideração das perdas no decorrer do processo de produção de alimentos, levam a uma subestimação do número de pessoas subnutridas (Takagi, Graziano da Silva & Del Grossi, 2001).
No entanto, o maior mérito do Relatório da Insegurança Alimentar no Mundo é derrubar um dos mitos mais poderosos acerca do problema da fome. O Relatório mostra que dos 98 países em desenvolvimento somente 6 países não têm disponibilidade de alimentos suficientes para alimentar adequadamente as suas populações. O problema nos outros 92 países não é de disponibilidade de alimentos, mas de incapacidade de acesso aos alimentos produzidos. É, portanto, uma questão de distribuição.
Cabe ressaltar, no entanto, que após o Plano Real o país tem recorrido constantemente às importações de alimentos como uma estratégia para estabilizar os preços destes. Isso significa que, a partir de meados dos anos 90, a disponibilidade de alimentos para o abastecimento do mercado interno passa a depender fortemente das importações, gerando uma situação de profunda insegurança alimentar. Basta mencionar que a importação de grãos e fibras passou de cerca de 3 milhões de toneladas no início da década para 12 milhões em 1999.
POBREZA, INDIGÊNCIA E INSUFICIÊNCIA DE RENDA
O pressuposto básico dos estudos que utilizam a renda como principal indicador para estimar as situações de fome e pobreza é de que o nível de renda define o nível de acesso a uma alimentação adequada. Esses estudos possuem em comum a definição de valores de referência, denominados linha de pobreza (LP) e linha de indigência (LI). Normalmente, a LI é definida com referência ao valor de uma cesta básica de alimentos, enquanto a LP inclui, além da cesta, outros bens e serviços considerados imprescindíveis para uma vida mais saudável (moradia, transporte, saúde etc.). A partir dessas definições, considera-se pobre ou indigente a pessoa cuja renda se situa abaixo desses valores de referências.
No entanto, não há um consenso acerca do método mais adequado para se estabelecer esses valores de referências. Normalmente, os valores atribuídos às linhas de pobreza e indigência estão relacionados aos objetivos dos estudos e à natureza dos dados utilizados. Pode-se classificar os estudos que definem a pobreza pela insuficiência de renda em dois grandes grupos: aqueles que utilizam como LP e LI um valor único para todo o país e aqueles que partem da estrutura de consumo das famílias (Takagi, Graziano da Silva & Del Grossi, 2001).
A tabela 1 apresenta dados de pesquisa mais recentes sobre a situação da pobreza e indigência no Brasil. Antes de qualquer tentativa de comparação esses resultados devem, portanto, ser compreendidos à luz da metodologia utilizada.
Tabela 1 - Comparação da Proporção de Indigentes e Pobres, segundo autores selecionados - 1999
Brasil
Rocha (2000) % indigentes
Rocha (2000) % pobres
Paes de Barros et al. (2001) % indigentes
Paes de Barros et al. (2001) % pobres
Hoffmann (2001) % pobres
Fome Zero (2001) % de pobres
TOTAL
8,7
35,0
14,5
34,1
18,1
27,6
Metropolitana
7,1
36,9
-----
-----
10,1
19,1
Urbana Não-metropolitana
7,3
31,8
-----
-----
15,1
25,5
Rural
15,3
40,3
-----
-----
38,5
46,1
Fonte: Adaptado do Projeto Fome Zero, versão 3 (Instituto da Cidadania, 2001)
Os trabalhos de Paes de Barros et al. e de Hoffmann utilizam valores únicos para todo o país. Paes de Barros et al. utilizam os dados oficiais do Ipea. As LI e LP empregadas são as mesmas definidas para a Região Metropolitana de São Paulo. Hoffmann utiliza como linha de pobreza para todo o país o valor correspondente a um quarto do salário mínimo de agosto de 1980 (R$46,15 em setembro de 1999).
Uma das justificativas para se usar esse método é que sua base, o salário mínimo, deveria suprir as necessidades vitais das pessoas (alimentação, moradia, transporte, saúde...). A utilização mais freqüente desse método se deve à transparência e praticidade na coleta dos dados. No entanto ele possui a desvantagem da variação periódica do salário mínimo. Além disso esse método, como todos que utilizam como LP e/ou LI valores únicos para todo o país, não leva em consideração as diferenças regionais e nem as diferenças entre o mundo rural e urbano no Brasil (Takagi, Graziano da Silva & Del Grossi, 2001, p. 12).
O estudo de Rocha faz parte do grupo de pesquisas que partem do consumo das famílias para definir as linhas de pobreza e indigência. Os valores de referência são estimados a partir da estrutura de consumo das famílias e dos preços em cada região. Essa é uma tentativa de considerar as diferenças de padrões de consumo e de custo de vida entre as regiões e entre as áreas rurais e urbanas. Os valores estabelecidos por Rocha são os seguintes:
a) LI varia de R$ 20,37 (áreas rurais do Centro-Oeste) a R$ 41,86 (Região Metropolitana do Rio de Janeiro);
b) LP varia de R$ 47,14 (áreas rurais do Nordeste) a R$ 167,97 (Região Metropolitana de São Paulo).
O trabalho de Takagi, Graziano da Silva & Del Grossi utiliza também valores de referências regionalizados. O ponto de partida da metodologia definida por esses autores é a LP de U$ 1,00 por dia, utilizada pelo Banco Mundial. No entanto, foram introduzidas algumas adaptações importantes, como a imputação do autoconsumo das famílias rurais, a dedução de despesas com aluguel e prestação da casa própria e a regionalização dos custos de vida, considerando também as diferenças rural/urbano. Os valores estabelecidos como LP variam de R$ 62,29 (áreas rurais do Nordeste) a R$ 82,54 (Região Metropolitana de Salvador). Vale ressaltar que esse estudo foi elaborado como um subsídio ao Projeto Fome Zero do Instituto da Cidadania, lançado oficialmente pelo então candidato a presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva em Brasília no dia 16/10/2001. O Projeto Fome Zero encampou integralmente a metodologia proposta por esses autores para estimar os potenciais beneficiários desse programa.
A diferença nos resultados sintetizados na Tabela 1 se deve, portanto, à diferença dos métodos e valores usados para traçar as LP e LI. Note-se que a proporção de pobres é maior nos estudos de Paes de Barros e Rocha, que atribuem valores mais elevados para a LP adotada. Da mesma forma, devido ao valor da LP utilizada por Hoffmann, a sua estimativa da proporção de pobres fica mais próxima da proporção de indigentes calculada por outros autores. Os resultados apresentados por Takagi, Graziano da Silva & Del Grossi se situam abaixo da estimava apresentada por Rocha para o conjunto do país (27,6% contra 35%), devido à diferença dos critérios de regionalização da LP acima nas áreas rurais (46,1% contra 40,3%). Os autores esclarecem que o objetivo do estudo não é estimar com precisão as pessoas que "passam fome" – o que exigiria pesquisas mais abrangentes e refinadas –, mas estimar o público beneficiário do Projeto Fome Zero, que seriam todos aqueles que, por insuficiência de renda, estariam "vulneráveis à fome" (Takagi, Graziano da Silva & Del Grossi, 2001).
Cabe ressaltar que, apesar das diferenças metodológicas, todos os estudos, inclusive aqueles produzidos pelos órgãos governamentais, são unânimes em apontar a magnitude e seriedade do problema da fome e da pobreza no Brasil.
EVOLUÇÃO DA POBREZA NO BRASIL
A amplitude do problema da fome e da pobreza no Brasil pode ser mais bem compreendida a partir de uma série histórica mais longa, capaz de captar não só as oscilações conjunturais, mas também as tendências de longo prazo. Por esse motivo, optou-se por utilizar nesta seção a série de dados apresentada no trabalho de Paes de Barros et al., citado anteriormente.
A análise dos dados sobre pobreza e indigência nas últimas duas décadas mostra que a pobreza atingiu os níveis mais elevados no início dos anos 80, devido à crise e recessão do período, chegando a mais de 50% da população em 1983 e 1984. Em 1986, devido aos impactos do Plano Cruzado, os níveis de pobreza caem significativamente, chegando a 28%. Como se sabe, os efeitos desse plano foram bastante efêmeros, e, nos anos seguintes, até 1995, a pobreza voltou a crescer, se situando entre 40% e 45% da população. A partir do Plano Real a pobreza se estabiliza em torno de 34%.
Os próprios autores (Paes de Barros et al., 2001) observam que, apesar de se situar em novo patamar, esse nível de pobreza ainda é extremamente alto. Na verdade, se considerarmos todo o período, veremos que a redução dos níveis de pobreza nos últimos vinte anos foi bastante modesta, de 40% em 1977 para 34% da população em 1999. A análise dos números absolutos revela que a lentidão desse processo não tem sido capaz sequer de acompanhar o crescimento populacional. O número de pessoas pobres passou de 41 milhões em 1977 para 53 milhões em 1999, um acréscimo de mais de 12 milhões de pobres na população total do país.
DISTRIBUIÇÃO ESPACIAL DA POBREZA E INDIGÊNCIA NO BRASIL
Apesar da diferença dos números, devido aos critérios adotados por cada autor, há uma tendência bastante clara em todos os estudos: a proporção de pobres e indigentes diminui nas áreas rurais e aumenta nas áreas urbanas.
Conforme mostrado anteriormente, os números apresentados no Projeto Fome Zero se situam um pouco abaixo das estimativas da pobreza (e muito acima da proporção de indigentes) calculadas por Rocha para o conjunto do país. Apesar disso, a proporção de pobres no meio rural estimada pelo Projeto Fome Zero é sempre maior do que em Rocha. De acordo com Takagi, Graziano da Silva & Del Grossi (2001), essas divergências nos resultados mostram que a metodologia proposta por eles foi mais eficiente em captar as diferenças de "custos de vida e hábitos alimentares entre as diferentes áreas de residência".
Mas deve-se observar que, apesar da pequena diminuição, a proporção de pobres e indigentes nas áreas rurais continua extremamente elevada. Em todos os estudos, a pobreza e a indigência no meio rural continuam, durante todo o período analisado, sendo proporcionalmente maiores do que nas áreas urbanas. Essa situação se repete em todas as regiões brasileiras, exceto no estudo de Rocha, no que se refere à estimativa de pobreza. Em todos os estudos a pobreza rural é proporcionalmente mais alta na Região Nordeste, variando de cerca de 50% (em Rocha e em Hoffmann) a 60% (Projeto Fome Zero) da população rural dessa região. Na Região Sul registraram-se os menores índices de pobreza rural, cerca de 22% em Rocha e em Hoffmann e de 28% segundo o Projeto Fome Zero. Na Região Norte as estimativas da pobreza rural variam de 38% (Projeto Fome Zero) a 45% (Hoffmann). No Centro-Oeste a pobreza atinge cerca de 34% da população rural (Rocha e Projeto Fome Zero). No Sudeste a proporção de pobres varia de 29% (Rocha) a 34% (Projeto Fome Zero).
Essa situação ganha uma conotação ainda mais estarrecedora se lembrarmos, como o faz José Ely da Veiga (2001), que a pobreza rural teima em persistir em níveis tão elevados mesmo após o brutal êxodo rural ocorrido nas últimas décadas.
Cabe ressaltar que até agora falou-se da pobreza em termos proporcionais. Se considerarmos os números absolutos fica evidente que o maior contingente de pobres está nas áreas urbanas. Como já foi dito anteriormente, é exatamente nessas áreas, especialmente nas regiões metropolitanas, que a pobreza e a indigência crescem mais. Apesar de estar presente em todos os estudos, essa tendência fica mais evidente no trabalho de Rocha, citada no Projeto Fome Zero (2001, p. 21). De acordo com essa autora, o agravamento da pobreza nas áreas metropolitanas está relacionado ao esgotamento dos efeitos redistributivos do Plano Real, já em meados de 1996, e aos ajustes econômicos desse período. O aumento da pobreza estaria mais diretamente ligado ao fechamento dos postos de trabalho de menor qualificação, acelerando o "processo de exclusão da mão-de-obra menos qualificada do mercado de trabalho".
CONCENTRAÇÃO DE RIQUEZAS: A CAUSA DA INSEGURANÇA
Conforme mostramos na seção “Fome e disponibilidade de alimentos”, as causas da fome no Brasil estão relacionadas à má distribuição e não à falta de alimentos. A incapacidade de acesso aos alimentos básicos e a outros bens e serviços necessários a uma qualidade de vida minimamente aceitável também não se deve, evidentemente, à insuficiência, mas à péssima distribuição de riquezas no país. Isso nos leva à conclusão óbvia de que as causas da pobreza no Brasil não devem ser buscadas nas flutuações de curto prazo da economia. Ao contrário são as causas estruturais que nos interessam: a desigualdade na distribuição de riquezas. Essa desigualdade se reveste de várias formas no país, mas basta aqui mencionar aquelas que determinam diretamente a falta de poder aquisitivo e acesso aos meios de produção:
a) concentração de terras. As raízes da concentração fundiária, por demais conhecida, remontam ao processo de ocupação territorial pelos colonizadores, iniciado com as capitanias hereditárias e consolidado pela Lei de Terras de 1850. A persistência ao longo dos séculos de um padrão de distribuição da propriedade da terra com níveis de desigualdade tão absurdamente elevados não pode ser, entretanto, explicada exclusivamente por esse particular processo de formação do latifúndio. Há que se somar a isso a histórica teimosia das elites brasileiras em não realizar uma verdadeira reforma agrária e o seu conseqüente desprezo pela agricultura familiar.
Uma breve análise dos dados Censo agropecuário de 1995/1996, do IBGE, é suficiente para ilustrar o exacerbado grau de polarização da nossa estrutura fundiária. Os estabelecimentos com menos de 10 hectares, cerca de 2,5 milhões de unidades que representam 50% do total de estabelecimentos, ocupam somente 2,2% da área total, a mesma área ocupada pelos 37 estabelecimentos com 100 mil hectares ou mais. Os estabelecimentos com menos de 100 hectares, 90% do total, ocupam 20% da área, enquanto os estabelecimentos com mais de 1.000 hectares, menos de 2% do total, ocupam 45% do total da área.
b) Concentração de rendas. A discussão sobre a desigualdade de renda terá como base os dados apresentados por Paes de Barros et al. (2001). O título do seu estudo, A estabilidade inaceitável: desigualdade e pobreza no Brasil, é bastante sugestivo e indica o sentido da exposição a seguir. Conforme mostrado na seção “Evolução da pobreza no Brasil”, a pobreza no Brasil, depois de uma pequena redução em meados dos anos 90, se estabilizou em um patamar ainda extremamente elevado.
Como já foi dito, essa persistência do fenômeno da pobreza não se deve a uma escassez de recursos. Uma rápida comparação com outros países pode ilustrar melhor essa questão. Comparando a renda per capita, o Brasil se situa entre o terço mais rico dos países do mundo, mas apesar disso apresenta níveis de pobreza (cerca de 30% da população) muito acima da média dos países com renda per capita similar (cerca de 10%). De acordo com Paes de Barros et al. (2001), "caso o grau de desigualdade de renda no Brasil correspondesse à desigualdade mundial média associada a cada nível de renda per capita, apenas 8% da população brasileira deveriam ser pobres".
Analisando as últimas duas décadas pode-se observar que a desigualdade de renda apresenta níveis assustadoramente estáveis. Durante quase todo o período a desigualdade, medida pelo coeficiente de Gini, se mantém com valor próximo de 0,60, sofrendo alterações somente no sentido ascendente. Esse nível de desigualdade só se verifica em outros três países: Guatemala, África do Sul e Malavi. Os dados mostram também que, em alguns anos, a renda dos 10% mais ricos chega a ser 30 vezes maior do que a renda dos 40% mais pobres. Considerando as rendas dos 20% mais ricos e dos 20% mais pobres, essa distância chega a 35 vezes.
O grau da desigualdade de rendas é tão profundo que permanece praticamente inalterado, mesmo quando a pobreza diminui em função de modificações na economia, como aquelas introduzidas por planos de estabilização. Segundo os autores citados, no que se refere ao Plano Real, por exemplo, os dados não demonstram que tenha havido "qualquer impacto significativo sobre a redução no grau de desigualdade, apesar de a pobreza ter sofrido uma redução importante" (Paes de Barros et al., 2001, p. 22).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A gravidade da situação de miséria de grande parte da população exige que se repudie com veemência as insistentes tentativas das elites em mistificar o problema. A sociedade brasileira não aceita mais os discursos demagógicos que buscam circunscrever a pobreza a situações e localidades específicas, para depois oferecer soluções eleitoreiras. Tal como o assistencialismo eleitoreiro deve ser rejeitado, também o economicismo tecnocrata, igualmente mistificador. Já está mais que evidenciado que o crescimento econômico, por mais importante que possa ser, é absolutamente insuficiente para se acabar com a pobreza no país. Da mesma forma, o equilíbrio macroeconômico e a estabilização da moeda produzem, no máximo, efeitos mitigadores e temporários.
Qualquer tentativa, minimamente séria, de atacar os problemas da fome e da pobreza deve considerar a sua causa mais profunda: a exacerbada concentração de riquezas no país. Esse diagnóstico aponta, necessariamente, para a urgência de um amplo processo de redistribuição da riqueza nacional. E essa não é, evidentemente, uma tarefa que possa ser "deixada" para o mercado. Ao contrário, a experiência internacional mostra que só se resolve o problema da pobreza e da desigualdade com a ação firme e planejada do Estado.
As políticas públicas de combate à fome e pobreza não devem, portanto, se restringir a "compensar" os efeitos de um modelo econômico concentrador. Deve-se romper com a artificial separação das chamadas "áreas" econômicas e sociais. Não se pode esperar que a "área" social resolva o problema da pobreza enquanto a política econômica continua a promover a exclusão. Ainda mais se considerarmos que o atual governo desarticulou as experiências que poderiam conduzir à verdadeira Política Nacional de Segurança Alimentar. Além disso, na ausência de um projeto social mais articulado, as políticas sociais do governo são concebidas de forma fragmentada e implementadas de forma desarticulada.
Acreditamos que as políticas de combate à fome e pobreza e a promoção da segurança alimentar devem ser pensadas como parte de um projeto alternativo de desenvolvimento, que tenha como eixo central a determinação de um crescente processo de inclusão social. Portanto, o combate à fome e pobreza implica necessariamente um amplo e sustentável processo de distribuição de riquezas, que, em linhas gerais, deve se traduzir em:
a) distribuição de renda. Políticas de geração de emprego e renda, recuperação do poder aquisitivo dos salários (especialmente do salário mínimo), programas de renda mínima etc.
b) reforma agrária. Aceleração do processo de reforma agrária (com assentamento de todas as famílias sem terra) e ampliação das políticas de apoio à agricultura familiar.
Acreditamos que esses devem ser os princípios orientadores da construção de um projeto de combate à fome e pobreza e de promoção da segurança alimentar. Tendo a diminuição das desigualdades como um princípio básico, e inegociável, pode-se partir para um amplo processo de discussão na sociedade visando identificar as políticas e os instrumentos mais adequados para se acabar de vez com a fome e miséria no país.
Referências
INSTITUTO CIDADANIA. Projeto Fome Zero: uma proposta de política de segurança alimentar para o Brasil (versão 3), 2001.
PAES DE BARROS, R; HENRIQUES, R.; MENDONÇA, R. A estabilidade inaceitável: desigualdade e pobreza no Brasil. Rio de Janeiro: Ipea, 2001. (Texto para Discussão, n. 800).
ROCHA, Sônia. Pobreza no Brasil: o que há de novo no limiar do século XXI? 2000. Mimeografado.
TAKAGI, Maya; GRAZIANO DA SILVA, José; DEL GROSSI, Mauro. Pobreza e fome: em busca de uma metodologia para quantificação do problema no Brasil. (Texto para discussão, n. 101). IE/UNICAMP. Mimeografado.
Autores
1Professor da Escola de Agronomia da UFG. tassol@uol.com.br
2Professor do Departamento de Sociologia da UCG
Tasso de Sousa Leite1, José Paulo Pietraffesa2
RESUMO: A partir da definição apresentada pelo Brasil na Cúpula Mundial d Alimentação, em 1996, que vê a segurança alimentar e nutricional como um direito humano básico e a insegurança alimentar (fome) como violação desse direito, procura-se neste trabalho traçar um panorama da fome e pobreza no Brasil.
O conceito de segurança alimentar foi definido de forma bastante clara no documento oficial do Brasil, apresentado na Cúpula Mundial da Alimentação em 1996. O documento sistematiza o conceito da seguinte forma:
"Segurança Alimentar e Nutricional significa garantir a todos acesso a alimentos básicos de qualidade, em quantidade suficiente, de modo permanente e sem comprometer o acesso a outras necessidades essenciais, com base em práticas alimentares saudáveis. Contribuindo, assim, para uma existência digna em um contexto de desenvolvimento integral da pessoa humana".
Essa definição implica uma abordagem da segurança alimentar como um direito humano básico e da insegurança alimentar (fome) como violação desse direito. Com base nessa definição, procura-se neste trabalho traçar um breve panorama da fome e pobreza no Brasil. O trabalho está organizado da seguinte forma: o item 2 apresenta uma discussão sobre os principais conceitos utilizados neste trabalho. O item 3 discute, com base no "Relatório da insegurança alimentar no mundo" (SOFI 2000), do Fundo das Nações Unidas Para a Agricultura e Alimentação, (FAO), a relação entre fome e subnutrição e a disponibilidade de alimentos. O item 4 apresenta os números da pobreza e indigência no Brasil, com base nos vários estudos que utilizam a abordagem da insuficiência de renda. O item 5 discute as causas estruturais da fome e da pobreza no Brasil (concentração de riquezas). Por fim, no item 6, apresentam-se as considerações finais.
REFERÊNCIAS CONCEITUAIS E METODOLÓGICAS
A discussão acerca do problema da segurança alimentar compreende a utilização de pelo menos três conceitos: pobreza, fome e desnutrição. De acordo com Monteiro, apud Takcgi, Silva e Grossi (200, 1 p. 17), há uma estreita relação entre esses conceitos, mas cada um possui uma definição própria. A pobreza ocorre quando, por falta ou insuficiência de renda, as pessoas não conseguem ter acesso aos meios de subsistência básicos, tais como alimentação, saúde, habitação, vestuário e educação, entre outros elementos necessários para uma vida com o mínimo de qualidade. A fome ocorre quando as pessoas não conseguem obter uma alimentação diária que supra suas necessidades de energia requeridas para a manutenção de seu organismo, considerando as várias atividades físicas normais do ser humano. A desnutrição, que geralmente acompanha as situações de fome e pobreza, decorre da inadequação alimentar tanto nos aspectos quantitativos (energéticos) quanto nos qualitativos (nutrientes).
Isso implica dizer que a fome não é a única causa da desnutrição. Quando uma determinada comunidade é acometida por fome, inevitavelmente acontecerá a desnutrição. Mas é bastante comum a ocorrência da desnutrição em pessoas que possuem suas necessidades energéticas atendidas, ou seja, que não "passam fome". Especialmente entre a população infantil, a desnutrição geralmente ocorre devido a uma inadequação qualitativa da dieta, agravada pelo desmame precoce, e à precariedade das condições sanitárias. Monteiro (1995) esclarece, ainda, que pode haver situações de generalizada pobreza em uma determinada localidade (devido à precariedade do acesso à moradia, educação, saneamento básico), sem que a sua população passe fome.
Pode-se também adicionar uma outra distinção conceitual importante: pobreza absoluta e pobreza relativa. O significado do primeiro conceito é similar ao conceito de pobreza visto anteriormente. O segundo se refere às situações de desigualdade social e à concentração da riqueza. Em termos hipotéticos uma sociedade pode apresentar elevados níveis de desigualdade e baixos índices de pobreza (absoluta); ou ainda, pode ser uma sociedade relativamente igualitária sem que a população tenha as suas necessidades básicas atendidas. No caso do Brasil convive-se com os dois tipos de pobreza, e ambas apresentam níveis absurdamente elevados. Mais do que isso, há uma estreita relação de causalidade entre elas, ou seja, a desigualdade na distribuição de riquezas é fator determinante dos altos índices de pobreza.
Essa distinção conceitual se reflete também em várias formas de se quantificar o problema. De forma geral, pode-se agrupar esses métodos em duas grandes linhas. A primeira se baseia na mensuração das necessidades básicas e utiliza os chamados métodos diretos. Nessa linha, desenvolvem-se pesquisas sobre a adequação entre o consumo de calorias e proteínas e as características físicas das pessoas (como altura e peso), considerando os tipos de atividades físicas que elas desempenham. Os indicadores mais utilizados são o consumo calórico e os dados antropométricos.
A outra linha de pesquisa prioriza os chamados métodos indiretos (ou "métodos da insuficiência de renda"). As pesquisas desenvolvidas com essa orientação metodológica pressupõem que uma alimentação adequada ou a satisfação de outras necessidades básicas podem ser inferidas a partir da mensuração da renda familiar.
Não há, evidentemente, nenhuma incompatibilidade entre essas duas linhas de pesquisa. No entanto, devido ao fato de serem em maior número e mais atuais, priorizaremos na exposição a seguir as pesquisas que se baseiam nos métodos indiretos. Além disso, acreditamos que há bastante evidências de que a insuficiência de renda é fator determinante da situação de fome e pobreza de grande parte da população brasileira. A esse respeito vale citar as palavras de (Takagi, Silva e Grossi (2001):
"No caso brasileiro, não há dúvida que a grande causa da falta de acesso aos alimentos, bem como da desnutrição infantil, é o baixo nível de renda. A Pesquisa Nacional de Saúde e Nutrição (PNSN) de 1989 constatou que ligeiros acréscimos na renda domiciliar traduzem-se em melhor desempenho no crescimento da população até 25 anos de idade. Hoffmann (1995) também constatou correlação negativa entre prevalência de retardo no crescimento na infância e o rendimento mediano das famílias destas crianças."
As estimativas do SOFI 2000 para o Brasil estão resumidas no quadro abaixo.
Disponibilidade de alimentos
Consumo recomendado
Consumo Médio
Déficit de calorias
Total de pessoas
Proporção de subnutridos
2.960
1.900
1.659
250
15,9
10% da
KPD*
KPD*
KPD*
KPD*
milhões
população
*(KPD = kcal/pessoa/dia)
FOME E DISPONIBILIDADE DE ALIMENTOS
A FAO é responsável pela realização e divulgação de um dos estudos mais abrangentes sobre (in) segurança alimentar no mundo. Um dos objetivos centrais do relatório "Estado da insegurança alimentar no mundo (SOFI)" é monitorar o cumprimento das metas de redução da pobreza e desnutrição traçadas pelos 186 países presentes na Cúpula Mundial da Alimentação, realizada em Roma em 1996.
Uma das principais constatações da segunda edição do Relatório da FAO, o SOFI 2000, é que a situação da insegurança alimentar no mundo praticamente não mudou desde o primeiro relatório. Segundo o SOFI 2000, a estimativa do número de pessoas subnutridas no período 1996-1998, é praticamente a mesma do período anterior (1995-1997): 826 milhões de pessoas subnutridas no mundo. Desse total, 792 milhões vivem nos países em desenvolvimento e 34 milhões nos países desenvolvidos. Isso mostra que ainda estamos longe de cumprir a meta da Cúpula Mundial, de reduzir pela metade o número de pobres até 2015. Segundo o diretor-geral da FAO, para alcançar essa meta, a taxa de redução do número de pobres deveria sair dos atuais 8 milhões de pessoas por ano para, no mínimo, 20 milhões de pessoas por ano, até 2015 (SOFI, 2000).
O método utilizado pela FAO para estimar o contingente de subnutridos em um país baseia-se nos seguintes critérios: calcula-se, com base nos dados sobre produção, comércio e estoques de alimentos, a disponibilidade de calorias per capita; estima-se a necessidade calórica da população, considerando a diferença entre os diversos grupos (idade, gênero etc.); e, por fim, combinam-se esses dados com informações sobre o consumo de alimentos e a distribuição de renda. Consideram-se subnutridos aqueles que consomem menos calorias que o mínimo estabelecido.
Como já era esperado, o estudo revela que a disponibilidade de alimentos é bastante superior às necessidades mínimas estabelecidas para o caso brasileiro, mas ainda assim o país possui cerca de 16 milhões de pessoas subnutridas. A partir da última edição do Relatório, a FAO começou a estimar a gravidade da fome, através do cálculo do déficit de calorias. No Brasil as pessoas consideradas subnutridas consomem em média 1.659 calorias por dia e necessitam, portanto, de cerca de 250 kcal/pessoa/dia para atingir o consumo mínimo recomendado. Nos países desenvolvidos esse déficit é de 130 kcal/pessoa/dia, enquanto nos países onde a situação de fome é mais grave o déficit é de 300 kcal/pessoa/dia.
Cabe ressaltar que uma das maiores virtudes do Relatório da FAO, a sua amplitude, constitui-se também em um de seus pontos fracos. A abrangência mundial do estudo, que é uma condição para comparações internacionais, o torna pouco adequado para uma avaliação mais aprofundada da realidade de cada país. Alguns estudiosos do tema consideram que certas limitações metodológicas, como a não-consideração das perdas no decorrer do processo de produção de alimentos, levam a uma subestimação do número de pessoas subnutridas (Takagi, Graziano da Silva & Del Grossi, 2001).
No entanto, o maior mérito do Relatório da Insegurança Alimentar no Mundo é derrubar um dos mitos mais poderosos acerca do problema da fome. O Relatório mostra que dos 98 países em desenvolvimento somente 6 países não têm disponibilidade de alimentos suficientes para alimentar adequadamente as suas populações. O problema nos outros 92 países não é de disponibilidade de alimentos, mas de incapacidade de acesso aos alimentos produzidos. É, portanto, uma questão de distribuição.
Cabe ressaltar, no entanto, que após o Plano Real o país tem recorrido constantemente às importações de alimentos como uma estratégia para estabilizar os preços destes. Isso significa que, a partir de meados dos anos 90, a disponibilidade de alimentos para o abastecimento do mercado interno passa a depender fortemente das importações, gerando uma situação de profunda insegurança alimentar. Basta mencionar que a importação de grãos e fibras passou de cerca de 3 milhões de toneladas no início da década para 12 milhões em 1999.
POBREZA, INDIGÊNCIA E INSUFICIÊNCIA DE RENDA
O pressuposto básico dos estudos que utilizam a renda como principal indicador para estimar as situações de fome e pobreza é de que o nível de renda define o nível de acesso a uma alimentação adequada. Esses estudos possuem em comum a definição de valores de referência, denominados linha de pobreza (LP) e linha de indigência (LI). Normalmente, a LI é definida com referência ao valor de uma cesta básica de alimentos, enquanto a LP inclui, além da cesta, outros bens e serviços considerados imprescindíveis para uma vida mais saudável (moradia, transporte, saúde etc.). A partir dessas definições, considera-se pobre ou indigente a pessoa cuja renda se situa abaixo desses valores de referências.
No entanto, não há um consenso acerca do método mais adequado para se estabelecer esses valores de referências. Normalmente, os valores atribuídos às linhas de pobreza e indigência estão relacionados aos objetivos dos estudos e à natureza dos dados utilizados. Pode-se classificar os estudos que definem a pobreza pela insuficiência de renda em dois grandes grupos: aqueles que utilizam como LP e LI um valor único para todo o país e aqueles que partem da estrutura de consumo das famílias (Takagi, Graziano da Silva & Del Grossi, 2001).
A tabela 1 apresenta dados de pesquisa mais recentes sobre a situação da pobreza e indigência no Brasil. Antes de qualquer tentativa de comparação esses resultados devem, portanto, ser compreendidos à luz da metodologia utilizada.
Tabela 1 - Comparação da Proporção de Indigentes e Pobres, segundo autores selecionados - 1999
Brasil
Rocha (2000) % indigentes
Rocha (2000) % pobres
Paes de Barros et al. (2001) % indigentes
Paes de Barros et al. (2001) % pobres
Hoffmann (2001) % pobres
Fome Zero (2001) % de pobres
TOTAL
8,7
35,0
14,5
34,1
18,1
27,6
Metropolitana
7,1
36,9
-----
-----
10,1
19,1
Urbana Não-metropolitana
7,3
31,8
-----
-----
15,1
25,5
Rural
15,3
40,3
-----
-----
38,5
46,1
Fonte: Adaptado do Projeto Fome Zero, versão 3 (Instituto da Cidadania, 2001)
Os trabalhos de Paes de Barros et al. e de Hoffmann utilizam valores únicos para todo o país. Paes de Barros et al. utilizam os dados oficiais do Ipea. As LI e LP empregadas são as mesmas definidas para a Região Metropolitana de São Paulo. Hoffmann utiliza como linha de pobreza para todo o país o valor correspondente a um quarto do salário mínimo de agosto de 1980 (R$46,15 em setembro de 1999).
Uma das justificativas para se usar esse método é que sua base, o salário mínimo, deveria suprir as necessidades vitais das pessoas (alimentação, moradia, transporte, saúde...). A utilização mais freqüente desse método se deve à transparência e praticidade na coleta dos dados. No entanto ele possui a desvantagem da variação periódica do salário mínimo. Além disso esse método, como todos que utilizam como LP e/ou LI valores únicos para todo o país, não leva em consideração as diferenças regionais e nem as diferenças entre o mundo rural e urbano no Brasil (Takagi, Graziano da Silva & Del Grossi, 2001, p. 12).
O estudo de Rocha faz parte do grupo de pesquisas que partem do consumo das famílias para definir as linhas de pobreza e indigência. Os valores de referência são estimados a partir da estrutura de consumo das famílias e dos preços em cada região. Essa é uma tentativa de considerar as diferenças de padrões de consumo e de custo de vida entre as regiões e entre as áreas rurais e urbanas. Os valores estabelecidos por Rocha são os seguintes:
a) LI varia de R$ 20,37 (áreas rurais do Centro-Oeste) a R$ 41,86 (Região Metropolitana do Rio de Janeiro);
b) LP varia de R$ 47,14 (áreas rurais do Nordeste) a R$ 167,97 (Região Metropolitana de São Paulo).
O trabalho de Takagi, Graziano da Silva & Del Grossi utiliza também valores de referências regionalizados. O ponto de partida da metodologia definida por esses autores é a LP de U$ 1,00 por dia, utilizada pelo Banco Mundial. No entanto, foram introduzidas algumas adaptações importantes, como a imputação do autoconsumo das famílias rurais, a dedução de despesas com aluguel e prestação da casa própria e a regionalização dos custos de vida, considerando também as diferenças rural/urbano. Os valores estabelecidos como LP variam de R$ 62,29 (áreas rurais do Nordeste) a R$ 82,54 (Região Metropolitana de Salvador). Vale ressaltar que esse estudo foi elaborado como um subsídio ao Projeto Fome Zero do Instituto da Cidadania, lançado oficialmente pelo então candidato a presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva em Brasília no dia 16/10/2001. O Projeto Fome Zero encampou integralmente a metodologia proposta por esses autores para estimar os potenciais beneficiários desse programa.
A diferença nos resultados sintetizados na Tabela 1 se deve, portanto, à diferença dos métodos e valores usados para traçar as LP e LI. Note-se que a proporção de pobres é maior nos estudos de Paes de Barros e Rocha, que atribuem valores mais elevados para a LP adotada. Da mesma forma, devido ao valor da LP utilizada por Hoffmann, a sua estimativa da proporção de pobres fica mais próxima da proporção de indigentes calculada por outros autores. Os resultados apresentados por Takagi, Graziano da Silva & Del Grossi se situam abaixo da estimava apresentada por Rocha para o conjunto do país (27,6% contra 35%), devido à diferença dos critérios de regionalização da LP acima nas áreas rurais (46,1% contra 40,3%). Os autores esclarecem que o objetivo do estudo não é estimar com precisão as pessoas que "passam fome" – o que exigiria pesquisas mais abrangentes e refinadas –, mas estimar o público beneficiário do Projeto Fome Zero, que seriam todos aqueles que, por insuficiência de renda, estariam "vulneráveis à fome" (Takagi, Graziano da Silva & Del Grossi, 2001).
Cabe ressaltar que, apesar das diferenças metodológicas, todos os estudos, inclusive aqueles produzidos pelos órgãos governamentais, são unânimes em apontar a magnitude e seriedade do problema da fome e da pobreza no Brasil.
EVOLUÇÃO DA POBREZA NO BRASIL
A amplitude do problema da fome e da pobreza no Brasil pode ser mais bem compreendida a partir de uma série histórica mais longa, capaz de captar não só as oscilações conjunturais, mas também as tendências de longo prazo. Por esse motivo, optou-se por utilizar nesta seção a série de dados apresentada no trabalho de Paes de Barros et al., citado anteriormente.
A análise dos dados sobre pobreza e indigência nas últimas duas décadas mostra que a pobreza atingiu os níveis mais elevados no início dos anos 80, devido à crise e recessão do período, chegando a mais de 50% da população em 1983 e 1984. Em 1986, devido aos impactos do Plano Cruzado, os níveis de pobreza caem significativamente, chegando a 28%. Como se sabe, os efeitos desse plano foram bastante efêmeros, e, nos anos seguintes, até 1995, a pobreza voltou a crescer, se situando entre 40% e 45% da população. A partir do Plano Real a pobreza se estabiliza em torno de 34%.
Os próprios autores (Paes de Barros et al., 2001) observam que, apesar de se situar em novo patamar, esse nível de pobreza ainda é extremamente alto. Na verdade, se considerarmos todo o período, veremos que a redução dos níveis de pobreza nos últimos vinte anos foi bastante modesta, de 40% em 1977 para 34% da população em 1999. A análise dos números absolutos revela que a lentidão desse processo não tem sido capaz sequer de acompanhar o crescimento populacional. O número de pessoas pobres passou de 41 milhões em 1977 para 53 milhões em 1999, um acréscimo de mais de 12 milhões de pobres na população total do país.
DISTRIBUIÇÃO ESPACIAL DA POBREZA E INDIGÊNCIA NO BRASIL
Apesar da diferença dos números, devido aos critérios adotados por cada autor, há uma tendência bastante clara em todos os estudos: a proporção de pobres e indigentes diminui nas áreas rurais e aumenta nas áreas urbanas.
Conforme mostrado anteriormente, os números apresentados no Projeto Fome Zero se situam um pouco abaixo das estimativas da pobreza (e muito acima da proporção de indigentes) calculadas por Rocha para o conjunto do país. Apesar disso, a proporção de pobres no meio rural estimada pelo Projeto Fome Zero é sempre maior do que em Rocha. De acordo com Takagi, Graziano da Silva & Del Grossi (2001), essas divergências nos resultados mostram que a metodologia proposta por eles foi mais eficiente em captar as diferenças de "custos de vida e hábitos alimentares entre as diferentes áreas de residência".
Mas deve-se observar que, apesar da pequena diminuição, a proporção de pobres e indigentes nas áreas rurais continua extremamente elevada. Em todos os estudos, a pobreza e a indigência no meio rural continuam, durante todo o período analisado, sendo proporcionalmente maiores do que nas áreas urbanas. Essa situação se repete em todas as regiões brasileiras, exceto no estudo de Rocha, no que se refere à estimativa de pobreza. Em todos os estudos a pobreza rural é proporcionalmente mais alta na Região Nordeste, variando de cerca de 50% (em Rocha e em Hoffmann) a 60% (Projeto Fome Zero) da população rural dessa região. Na Região Sul registraram-se os menores índices de pobreza rural, cerca de 22% em Rocha e em Hoffmann e de 28% segundo o Projeto Fome Zero. Na Região Norte as estimativas da pobreza rural variam de 38% (Projeto Fome Zero) a 45% (Hoffmann). No Centro-Oeste a pobreza atinge cerca de 34% da população rural (Rocha e Projeto Fome Zero). No Sudeste a proporção de pobres varia de 29% (Rocha) a 34% (Projeto Fome Zero).
Essa situação ganha uma conotação ainda mais estarrecedora se lembrarmos, como o faz José Ely da Veiga (2001), que a pobreza rural teima em persistir em níveis tão elevados mesmo após o brutal êxodo rural ocorrido nas últimas décadas.
Cabe ressaltar que até agora falou-se da pobreza em termos proporcionais. Se considerarmos os números absolutos fica evidente que o maior contingente de pobres está nas áreas urbanas. Como já foi dito anteriormente, é exatamente nessas áreas, especialmente nas regiões metropolitanas, que a pobreza e a indigência crescem mais. Apesar de estar presente em todos os estudos, essa tendência fica mais evidente no trabalho de Rocha, citada no Projeto Fome Zero (2001, p. 21). De acordo com essa autora, o agravamento da pobreza nas áreas metropolitanas está relacionado ao esgotamento dos efeitos redistributivos do Plano Real, já em meados de 1996, e aos ajustes econômicos desse período. O aumento da pobreza estaria mais diretamente ligado ao fechamento dos postos de trabalho de menor qualificação, acelerando o "processo de exclusão da mão-de-obra menos qualificada do mercado de trabalho".
CONCENTRAÇÃO DE RIQUEZAS: A CAUSA DA INSEGURANÇA
Conforme mostramos na seção “Fome e disponibilidade de alimentos”, as causas da fome no Brasil estão relacionadas à má distribuição e não à falta de alimentos. A incapacidade de acesso aos alimentos básicos e a outros bens e serviços necessários a uma qualidade de vida minimamente aceitável também não se deve, evidentemente, à insuficiência, mas à péssima distribuição de riquezas no país. Isso nos leva à conclusão óbvia de que as causas da pobreza no Brasil não devem ser buscadas nas flutuações de curto prazo da economia. Ao contrário são as causas estruturais que nos interessam: a desigualdade na distribuição de riquezas. Essa desigualdade se reveste de várias formas no país, mas basta aqui mencionar aquelas que determinam diretamente a falta de poder aquisitivo e acesso aos meios de produção:
a) concentração de terras. As raízes da concentração fundiária, por demais conhecida, remontam ao processo de ocupação territorial pelos colonizadores, iniciado com as capitanias hereditárias e consolidado pela Lei de Terras de 1850. A persistência ao longo dos séculos de um padrão de distribuição da propriedade da terra com níveis de desigualdade tão absurdamente elevados não pode ser, entretanto, explicada exclusivamente por esse particular processo de formação do latifúndio. Há que se somar a isso a histórica teimosia das elites brasileiras em não realizar uma verdadeira reforma agrária e o seu conseqüente desprezo pela agricultura familiar.
Uma breve análise dos dados Censo agropecuário de 1995/1996, do IBGE, é suficiente para ilustrar o exacerbado grau de polarização da nossa estrutura fundiária. Os estabelecimentos com menos de 10 hectares, cerca de 2,5 milhões de unidades que representam 50% do total de estabelecimentos, ocupam somente 2,2% da área total, a mesma área ocupada pelos 37 estabelecimentos com 100 mil hectares ou mais. Os estabelecimentos com menos de 100 hectares, 90% do total, ocupam 20% da área, enquanto os estabelecimentos com mais de 1.000 hectares, menos de 2% do total, ocupam 45% do total da área.
b) Concentração de rendas. A discussão sobre a desigualdade de renda terá como base os dados apresentados por Paes de Barros et al. (2001). O título do seu estudo, A estabilidade inaceitável: desigualdade e pobreza no Brasil, é bastante sugestivo e indica o sentido da exposição a seguir. Conforme mostrado na seção “Evolução da pobreza no Brasil”, a pobreza no Brasil, depois de uma pequena redução em meados dos anos 90, se estabilizou em um patamar ainda extremamente elevado.
Como já foi dito, essa persistência do fenômeno da pobreza não se deve a uma escassez de recursos. Uma rápida comparação com outros países pode ilustrar melhor essa questão. Comparando a renda per capita, o Brasil se situa entre o terço mais rico dos países do mundo, mas apesar disso apresenta níveis de pobreza (cerca de 30% da população) muito acima da média dos países com renda per capita similar (cerca de 10%). De acordo com Paes de Barros et al. (2001), "caso o grau de desigualdade de renda no Brasil correspondesse à desigualdade mundial média associada a cada nível de renda per capita, apenas 8% da população brasileira deveriam ser pobres".
Analisando as últimas duas décadas pode-se observar que a desigualdade de renda apresenta níveis assustadoramente estáveis. Durante quase todo o período a desigualdade, medida pelo coeficiente de Gini, se mantém com valor próximo de 0,60, sofrendo alterações somente no sentido ascendente. Esse nível de desigualdade só se verifica em outros três países: Guatemala, África do Sul e Malavi. Os dados mostram também que, em alguns anos, a renda dos 10% mais ricos chega a ser 30 vezes maior do que a renda dos 40% mais pobres. Considerando as rendas dos 20% mais ricos e dos 20% mais pobres, essa distância chega a 35 vezes.
O grau da desigualdade de rendas é tão profundo que permanece praticamente inalterado, mesmo quando a pobreza diminui em função de modificações na economia, como aquelas introduzidas por planos de estabilização. Segundo os autores citados, no que se refere ao Plano Real, por exemplo, os dados não demonstram que tenha havido "qualquer impacto significativo sobre a redução no grau de desigualdade, apesar de a pobreza ter sofrido uma redução importante" (Paes de Barros et al., 2001, p. 22).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A gravidade da situação de miséria de grande parte da população exige que se repudie com veemência as insistentes tentativas das elites em mistificar o problema. A sociedade brasileira não aceita mais os discursos demagógicos que buscam circunscrever a pobreza a situações e localidades específicas, para depois oferecer soluções eleitoreiras. Tal como o assistencialismo eleitoreiro deve ser rejeitado, também o economicismo tecnocrata, igualmente mistificador. Já está mais que evidenciado que o crescimento econômico, por mais importante que possa ser, é absolutamente insuficiente para se acabar com a pobreza no país. Da mesma forma, o equilíbrio macroeconômico e a estabilização da moeda produzem, no máximo, efeitos mitigadores e temporários.
Qualquer tentativa, minimamente séria, de atacar os problemas da fome e da pobreza deve considerar a sua causa mais profunda: a exacerbada concentração de riquezas no país. Esse diagnóstico aponta, necessariamente, para a urgência de um amplo processo de redistribuição da riqueza nacional. E essa não é, evidentemente, uma tarefa que possa ser "deixada" para o mercado. Ao contrário, a experiência internacional mostra que só se resolve o problema da pobreza e da desigualdade com a ação firme e planejada do Estado.
As políticas públicas de combate à fome e pobreza não devem, portanto, se restringir a "compensar" os efeitos de um modelo econômico concentrador. Deve-se romper com a artificial separação das chamadas "áreas" econômicas e sociais. Não se pode esperar que a "área" social resolva o problema da pobreza enquanto a política econômica continua a promover a exclusão. Ainda mais se considerarmos que o atual governo desarticulou as experiências que poderiam conduzir à verdadeira Política Nacional de Segurança Alimentar. Além disso, na ausência de um projeto social mais articulado, as políticas sociais do governo são concebidas de forma fragmentada e implementadas de forma desarticulada.
Acreditamos que as políticas de combate à fome e pobreza e a promoção da segurança alimentar devem ser pensadas como parte de um projeto alternativo de desenvolvimento, que tenha como eixo central a determinação de um crescente processo de inclusão social. Portanto, o combate à fome e pobreza implica necessariamente um amplo e sustentável processo de distribuição de riquezas, que, em linhas gerais, deve se traduzir em:
a) distribuição de renda. Políticas de geração de emprego e renda, recuperação do poder aquisitivo dos salários (especialmente do salário mínimo), programas de renda mínima etc.
b) reforma agrária. Aceleração do processo de reforma agrária (com assentamento de todas as famílias sem terra) e ampliação das políticas de apoio à agricultura familiar.
Acreditamos que esses devem ser os princípios orientadores da construção de um projeto de combate à fome e pobreza e de promoção da segurança alimentar. Tendo a diminuição das desigualdades como um princípio básico, e inegociável, pode-se partir para um amplo processo de discussão na sociedade visando identificar as políticas e os instrumentos mais adequados para se acabar de vez com a fome e miséria no país.
Referências
INSTITUTO CIDADANIA. Projeto Fome Zero: uma proposta de política de segurança alimentar para o Brasil (versão 3), 2001.
PAES DE BARROS, R; HENRIQUES, R.; MENDONÇA, R. A estabilidade inaceitável: desigualdade e pobreza no Brasil. Rio de Janeiro: Ipea, 2001. (Texto para Discussão, n. 800).
ROCHA, Sônia. Pobreza no Brasil: o que há de novo no limiar do século XXI? 2000. Mimeografado.
TAKAGI, Maya; GRAZIANO DA SILVA, José; DEL GROSSI, Mauro. Pobreza e fome: em busca de uma metodologia para quantificação do problema no Brasil. (Texto para discussão, n. 101). IE/UNICAMP. Mimeografado.
Autores
1Professor da Escola de Agronomia da UFG. tassol@uol.com.br
2Professor do Departamento de Sociologia da UCG
“Igreja a partir das bases”
“Igreja a partir das bases”
Dois modos diferentes de ser Igreja a partir das bases são apresentados nos artigos a seguir. São duas experiências diferentes, mas complementares, uma nas Américas: “Igrejas Orgânicas” estão ganhando aceitação entre os hispânicos, e outra em Milão: “Quando um padre se mobiliza realmente, os fiéis o seguem com alegria”
Vale conferir.
“Igrejas Orgânicas” estão ganhando aceitação entre os hispânicos
Um número significativo de hispânicos abandonou as suas igrejas tradicionais para aderir à chamada “igrejas orgânicas”, que normalmente se reúnem em casas particulares e em que não há nenhuma liderança formal.
“Uma grande porcentagem dos Latinos e Afro-americanos são atraídos para essas igrejas orgânicas não só nos E.U. mas também na América Latina”, disse à Efe Frank Viola, autor de vários livros sobre o que ele denominou de “reforma radical” da Igreja .
Viola, que este ano irá realizar uma conferência no México sobre o tema e tem trabalhado com grupos na América Latina, é o fundador da Present Testimony Ministry, com sede em Gainesville, Flórida.
Viola define igreja orgânica como “um grupo de gente que aprende junta a viver a vida divina: é uma comunidade onde todos se conhecem e todos participam.
“A Igreja orgânica é a igreja que encontramos nas páginas do Novo Testamento. A igreja nas casas é simplesmente um grupo de cristãos que se reunem em alguma. Não são a mesma coisa.
A maior parte desses grupos nas casas não são orgânicos, de maneira alguma”, disse ele.
A igreja orgânica também se conhece como igreja simples, igreja livre, igreja da sala de estar, confraternidades, ou comunidades eclesiais de base, dentre outros nomes.
Esta “volta às origens”, disse Viola, significa que é “igreja orgânica não é nova nem é uma novidade, já que sempre houve cristãos que se reuniram fora das estruturas eclesiásticas institucionais”.
Para Viola, as igrejas orgânicos oferecem uma alternativa para um milhão de adultos cristãos que a cada ano deixam as igrejas tradicionais nos E.U. e para os 1.700 pastores deste país que, cada mês, abandonam os ministérios.
Segundo as estatísticas do Grupo Barna, nos E.U. haveria pelo menos 30.000 grupos de igreja orgânica, e o número provavelmente chegaria a um milhão na América Latina.
Stan Perea, um membro da mesa diretora da Associação para a Educação Teológica Hispana (AETH), que reúne mais de 1.200 U. S. teólogos latinos nos EEUU, afirmou que os Latinos se sentem atraídos para as igrejas orgânicas porque essas pequenas igrejas “restauram o senso de pertença e de orientação “.
“É triste que as igrejas tradicionais já não ajudem as pessoas a se conectarem com a vida. E é ainda mais triste que nos E.U. as igrejas se dediquem a ensinar aos imigrantes como serem individualistas, até ao ponto de ficarmos totalmente desligados”, disse Teria, que desde 1986 dirige um ministério cristão, em Dever.
Em Deve, Banca Ortiz, uma imigrante mexicana que se descreve como “uma cristã de toda a vida”, participa, desde o ano passado de uma igreja orgânica que se reúne na casa de uma amiga.
“Não existem líderes. É bem informal. Todos falamos, cara a cara, com todos. Todos participamos, apesar de virmos de igrejas e de países diferentes. Nós nos reunimos para celebrar. É verdade que deixamos as igrejas tradicionais, mas não deixamos a nossa fé”, disse Blanca.
Estas reuniões são simples e permitem partilhar tanto a comida como “as bênçãos materiais e espirituais”. Além disso, as crianças estão presentes em quase todas as atividades “, para mostrar como eles são importantes para nós.”
Para Ortiz, a igreja orgânica tem outra grande vantagem. “Já não recebo constantes chamadas lembrando-me que tenho de ir à igreja. Ninguém chama ninguém, mas sempre estamos todos lá, porque a igreja não é um edifício, mas um grupo de pessoas com uma fé comum”, concluiu ela.
Por: Francisco Miraval Denver, March 9 (AFP)
Tradução: João Tavares
“Quando um padre se mobiliza realmente, os fiéis o seguem com alegria”
“Os fiéis leigos, precisamente porque são membros da Igreja, têm a vocação e a missão de anunciar o Evangelho: para essa atividade estão capacitados e comprometidos pelos sacramentos da iniciação cristã e pelos dons do Espírito Santo”. João Paulo II
MILÃO, sexta-feira, 19 de março de 2010 (ZENIT.org).- Do dia 26 a 30 de maio, a paróquia Santo Eustorgio de Milão, na Itália, acolherá sacerdotes e leigos de diversos continentes para um seminário internacional sobre as células paroquiais de evangelização.
Esse sistema introduzido na Europa há 22 anos está em grande expansão atualmente no mundo.
O seminário prestará especial atenção ao compromisso do organismo internacional de serviço ao sistema das células paroquiais de evangelização, na difusão desse método nos países mais distantes da África até a China.
A iniciativa também propõe um simpósio internacional para sacerdotes, dia 27 de maio, sobre o tema “O sacerdote na nova evangelização”, assim como uma formação específica para os líderes dessas células, nos dias 28 e 29 de maio.
O seminário é voltado para todos os que desejam descobrir o método do padre Pigi, pároco da paróquia de Santo Eustorgio e presidente do organismo internacional das células.
Um sistema que tem sede na Europa e deve ter sua “durabilidade garantida”, segundo palavras do decreto de reconhecimento enviado oficialmente pela Santa Sé em maio do ano passado.
Esse reconhecimento é por um serviço que ajuda cada sacerdote a devolver uma consciência missionária aos fiéis de sua paróquia.
Padre Pigi está convencido de que “quando um pároco se mobiliza realmente, os fiéis o seguem com entusiasmo”.
Em uma entrevista com ZENIT, recorda os objetivos dessas células e mostra como este método, adaptado à vida paroquial, não para de despejar graças sobre paróquias dos cinco continentes, “prova viva de sua fecundidade”.
– No que consiste o seminário? Quais serão os pontos especialmente abordados?
– Pe. Pigi: No próximo seminário teremos um tema geral que tratará o compromisso do Organismo internacional de serviço do sistema de células paroquiais de evangelização, referente à difusão de nosso método de evangelização nos países mais distantes da África até a China. Apresentaremos o método de evangelização de oikos, que é a marca que difere nossa proposta em termos de evangelização.
A evangelização de oikos consiste em evangelizar os que se encontram habitualmente em sua vida cotidiana: familiares, amigos, companheiros de trabalho, vizinhos: eles são destinatários do anúncio do amor de Deus.
É por isso que podemos dizer que todos estão convidados a proclamar Jesus, não somente os consagrados, sacerdotes ou missionários, mas sim todos, animados pela força de seu batismo, receberam o grande mandato de Jesus de anunciar o amor de Deus.
Mas nunca houve evangelização de oikos possível sem a oração, porque a evangelização passa pela ação do Espírito Santo. Nós somos apenas simples instrumentos em suas mãos.
A evangelização é antes de tudo um compromisso de oração: por isso, em nossa comunidade de Santo Eustorgio, e eu diria que em quase todas as comunidades nas que estão presentes as células, há adoração eucarística.
Durante esse seminário, falaremos da função do Espírito Santo, porque, como escreveu o Papa Paulo VI em sua exortação apostólica Evangelii Nuntiandi no n° 75, “O Espírito Santo é o agente principal da evangelização: é ele quem leva cada um para proclamar o Evangelho e que, no fundo da consciência, faz aceitar e compreender a Palavra de salvação”.
Temos de educar aos fiéis leigos e talvez também os sacerdotes para que tenham vínculos familiares com o Espírito Santo, abrindo suas ações de forma discreta e poderosa.
As células de evangelização visam a revitalizar a paróquia, que descobrirá então sua verdade identidade e favorecerá a vocação missionária de todos os crentes, como nos sugere Paulo VI na Evangelii Nuntiandi no n° 14.
“Evangelizar é, de fato, a graça e a vocação própria da Igreja, sua identidade mais profunda. Ela existe para evangelizar”. afirma.
E João Paulo II na Christifideles Laici, no n° 33: “Os fiéis leigos, precisamente porque são membros da Igreja, têm a vocação e a missão de anunciar o Evangelho: para essa atividade estão capacitados e comprometidos pelos sacramentos da iniciação cristã e pelos dons do Espírito Santo”.
Reconhecendo essa responsabilidade, os leigos vão ser o fermento que transformará a face da paróquia. Mas tudo isso não será possível se o sacerdote, por sua vez, não se abrir definitivamente e firmemente ao que dá singularidade ao seu serviço sacerdotal, ao que dá uma profunda unidade às milhares de ocupações solicitadas dele ao longo de sua vida: anunciar o Evangelho de Deus e formar leigos evangelizadores.
É transformando-se em uma paróquia viva e evangelizadora que a paróquia mudará de rosto.
– Para quem é dirigido esse seminário e, qual é o fio condutor com o do ano passado?
– Pe. Pigi: O seminário se dirige a todos os sacerdotes que desejam transformar sua paróquia e também descobrir novos caminhos de evangelização, seguindo os ensinamentos do Papa.
Esses sacerdotes irão acompanhar diversos leigos de sua comunidade de forma que esse pequeno grupo que se formará possa representar uma força motriz no interior da paróquia.
Este ano abordaremos mais especificamente a formação dos que estão convidados a serem os “líderes” desses pequenos grupos que são células.
– O método das células de evangelização fará 1 ano em maio que foi reconhecido pela Santa Sé. Esse reconhecimento teve impacto sobre seu crescimento nesse ano e sobre a percepção que alguns poderiam ter desse método de evangelização?
– Pe. Pigi: Claro, muitos preconceitos desapareceram porque esse reconhecimento oficial, que não havíamos pedido, mas que o Conselho Pontífico para os Leigos nos ofereceu, qualifica-nos no plano das atividades da Igreja universal como tal, garantindo a ortodoxia do método sobre a base dos resultados espirituais e de difusão obtidos até agora.
Esse reconhecimento, que expressa a vontade da Igreja de que continue esse método, confirma o catolicismo e a validade pastoral de uma proposta capaz de renovar profundamente, e de uma visão missionária, às comunidades paroquiais.
– Há novas paróquias que decidiram, desde então, recorrer a esse método?
– Pe. Pigi: Sim, vemos, de fato, que centenas, talvez milhares, de paróquias no mundo adotaram com êxito este método de evangelização através das células.
No Decreto de reconhecimento, está escrito: “Isso porque a comunidade paroquial é o tecido eclesial no qual se integra o conjunto do sistema das células. Seu desenvolvimento em diversos países através do mundo demonstra a validade desse método, que contribui com a resposta do convite do Papa João Paulo II a uma “nova evangelização, nova em seu ardor, seus métodos e suas expressões” (Discurso à IXI Assembleia do Conselho Episcopal Latino-Americano, 9 de março de 1983).
Desde a apresentação do Decreto de Reconhecimento, obtido em 29 de maio de 2009, surgiram novas iniciativas em diversos países do mundo. Muitas comunidades nos convidaram para apresentar esse método e muitos sacerdotes e leigos estão vindo conhecer nossa realidade.
Temos vivido uma experiência importante e significativa com as comunidades chinesas que, através de ouvir falar desse método de evangelização no âmbito paroquial, vieram participar do Seminário Internacional do ano passado.
Também temos visitado as comunidades paroquiais do Brasil e da Venezuela, onde a experiência das células paroquiais está produzindo outras centenas de células.
No mês de janeiro de 2010, se reuniram em Santo Eustorgio os promotores de área, como são chamados os que se ocupam das células presentes nas diferentes regiões geográficas ou linguísticas do mundo.
Essa reunião foi uma oportunidade para colocar, online, o website internacional de células, que representa uma boa ferramenta de evangelização. Seu endereço é www.cells-evangelization.org.
O encontro também ofereceu formação da equipe internacional encarregada da formação de líderes e co-líderes.
Além disso, nos permitiu saber como e com qual amplitude as células se propagam pelo mundo.
Hoje mesmo eu conheci o nascimento de 17 células em uma paróquia da Letônia e fiquei sabendo que trinta pessoas dessa paróquia participarão do próximo seminário de 26 a 30 de maio.
– Quais são os países mais adeptos dessa diferente maneira de vida na paróquia?
– Pe. Pigi: Na França, Bélgica, Irlanda, Itália, Brasil, Venezuela, países da Europa Oriental, entre outros.
Em suma, onde a paróquia tende a adormecer, as células podem representar uma ocasião para renovar os sacerdotes e os fiéis leigos.
Fonte: http://www.zenit.org/article-24397?l=portuguese
Dois modos diferentes de ser Igreja a partir das bases são apresentados nos artigos a seguir. São duas experiências diferentes, mas complementares, uma nas Américas: “Igrejas Orgânicas” estão ganhando aceitação entre os hispânicos, e outra em Milão: “Quando um padre se mobiliza realmente, os fiéis o seguem com alegria”
Vale conferir.
“Igrejas Orgânicas” estão ganhando aceitação entre os hispânicos
Um número significativo de hispânicos abandonou as suas igrejas tradicionais para aderir à chamada “igrejas orgânicas”, que normalmente se reúnem em casas particulares e em que não há nenhuma liderança formal.
“Uma grande porcentagem dos Latinos e Afro-americanos são atraídos para essas igrejas orgânicas não só nos E.U. mas também na América Latina”, disse à Efe Frank Viola, autor de vários livros sobre o que ele denominou de “reforma radical” da Igreja .
Viola, que este ano irá realizar uma conferência no México sobre o tema e tem trabalhado com grupos na América Latina, é o fundador da Present Testimony Ministry, com sede em Gainesville, Flórida.
Viola define igreja orgânica como “um grupo de gente que aprende junta a viver a vida divina: é uma comunidade onde todos se conhecem e todos participam.
“A Igreja orgânica é a igreja que encontramos nas páginas do Novo Testamento. A igreja nas casas é simplesmente um grupo de cristãos que se reunem em alguma. Não são a mesma coisa.
A maior parte desses grupos nas casas não são orgânicos, de maneira alguma”, disse ele.
A igreja orgânica também se conhece como igreja simples, igreja livre, igreja da sala de estar, confraternidades, ou comunidades eclesiais de base, dentre outros nomes.
Esta “volta às origens”, disse Viola, significa que é “igreja orgânica não é nova nem é uma novidade, já que sempre houve cristãos que se reuniram fora das estruturas eclesiásticas institucionais”.
Para Viola, as igrejas orgânicos oferecem uma alternativa para um milhão de adultos cristãos que a cada ano deixam as igrejas tradicionais nos E.U. e para os 1.700 pastores deste país que, cada mês, abandonam os ministérios.
Segundo as estatísticas do Grupo Barna, nos E.U. haveria pelo menos 30.000 grupos de igreja orgânica, e o número provavelmente chegaria a um milhão na América Latina.
Stan Perea, um membro da mesa diretora da Associação para a Educação Teológica Hispana (AETH), que reúne mais de 1.200 U. S. teólogos latinos nos EEUU, afirmou que os Latinos se sentem atraídos para as igrejas orgânicas porque essas pequenas igrejas “restauram o senso de pertença e de orientação “.
“É triste que as igrejas tradicionais já não ajudem as pessoas a se conectarem com a vida. E é ainda mais triste que nos E.U. as igrejas se dediquem a ensinar aos imigrantes como serem individualistas, até ao ponto de ficarmos totalmente desligados”, disse Teria, que desde 1986 dirige um ministério cristão, em Dever.
Em Deve, Banca Ortiz, uma imigrante mexicana que se descreve como “uma cristã de toda a vida”, participa, desde o ano passado de uma igreja orgânica que se reúne na casa de uma amiga.
“Não existem líderes. É bem informal. Todos falamos, cara a cara, com todos. Todos participamos, apesar de virmos de igrejas e de países diferentes. Nós nos reunimos para celebrar. É verdade que deixamos as igrejas tradicionais, mas não deixamos a nossa fé”, disse Blanca.
Estas reuniões são simples e permitem partilhar tanto a comida como “as bênçãos materiais e espirituais”. Além disso, as crianças estão presentes em quase todas as atividades “, para mostrar como eles são importantes para nós.”
Para Ortiz, a igreja orgânica tem outra grande vantagem. “Já não recebo constantes chamadas lembrando-me que tenho de ir à igreja. Ninguém chama ninguém, mas sempre estamos todos lá, porque a igreja não é um edifício, mas um grupo de pessoas com uma fé comum”, concluiu ela.
Por: Francisco Miraval Denver, March 9 (AFP)
Tradução: João Tavares
“Quando um padre se mobiliza realmente, os fiéis o seguem com alegria”
“Os fiéis leigos, precisamente porque são membros da Igreja, têm a vocação e a missão de anunciar o Evangelho: para essa atividade estão capacitados e comprometidos pelos sacramentos da iniciação cristã e pelos dons do Espírito Santo”. João Paulo II
MILÃO, sexta-feira, 19 de março de 2010 (ZENIT.org).- Do dia 26 a 30 de maio, a paróquia Santo Eustorgio de Milão, na Itália, acolherá sacerdotes e leigos de diversos continentes para um seminário internacional sobre as células paroquiais de evangelização.
Esse sistema introduzido na Europa há 22 anos está em grande expansão atualmente no mundo.
O seminário prestará especial atenção ao compromisso do organismo internacional de serviço ao sistema das células paroquiais de evangelização, na difusão desse método nos países mais distantes da África até a China.
A iniciativa também propõe um simpósio internacional para sacerdotes, dia 27 de maio, sobre o tema “O sacerdote na nova evangelização”, assim como uma formação específica para os líderes dessas células, nos dias 28 e 29 de maio.
O seminário é voltado para todos os que desejam descobrir o método do padre Pigi, pároco da paróquia de Santo Eustorgio e presidente do organismo internacional das células.
Um sistema que tem sede na Europa e deve ter sua “durabilidade garantida”, segundo palavras do decreto de reconhecimento enviado oficialmente pela Santa Sé em maio do ano passado.
Esse reconhecimento é por um serviço que ajuda cada sacerdote a devolver uma consciência missionária aos fiéis de sua paróquia.
Padre Pigi está convencido de que “quando um pároco se mobiliza realmente, os fiéis o seguem com entusiasmo”.
Em uma entrevista com ZENIT, recorda os objetivos dessas células e mostra como este método, adaptado à vida paroquial, não para de despejar graças sobre paróquias dos cinco continentes, “prova viva de sua fecundidade”.
– No que consiste o seminário? Quais serão os pontos especialmente abordados?
– Pe. Pigi: No próximo seminário teremos um tema geral que tratará o compromisso do Organismo internacional de serviço do sistema de células paroquiais de evangelização, referente à difusão de nosso método de evangelização nos países mais distantes da África até a China. Apresentaremos o método de evangelização de oikos, que é a marca que difere nossa proposta em termos de evangelização.
A evangelização de oikos consiste em evangelizar os que se encontram habitualmente em sua vida cotidiana: familiares, amigos, companheiros de trabalho, vizinhos: eles são destinatários do anúncio do amor de Deus.
É por isso que podemos dizer que todos estão convidados a proclamar Jesus, não somente os consagrados, sacerdotes ou missionários, mas sim todos, animados pela força de seu batismo, receberam o grande mandato de Jesus de anunciar o amor de Deus.
Mas nunca houve evangelização de oikos possível sem a oração, porque a evangelização passa pela ação do Espírito Santo. Nós somos apenas simples instrumentos em suas mãos.
A evangelização é antes de tudo um compromisso de oração: por isso, em nossa comunidade de Santo Eustorgio, e eu diria que em quase todas as comunidades nas que estão presentes as células, há adoração eucarística.
Durante esse seminário, falaremos da função do Espírito Santo, porque, como escreveu o Papa Paulo VI em sua exortação apostólica Evangelii Nuntiandi no n° 75, “O Espírito Santo é o agente principal da evangelização: é ele quem leva cada um para proclamar o Evangelho e que, no fundo da consciência, faz aceitar e compreender a Palavra de salvação”.
Temos de educar aos fiéis leigos e talvez também os sacerdotes para que tenham vínculos familiares com o Espírito Santo, abrindo suas ações de forma discreta e poderosa.
As células de evangelização visam a revitalizar a paróquia, que descobrirá então sua verdade identidade e favorecerá a vocação missionária de todos os crentes, como nos sugere Paulo VI na Evangelii Nuntiandi no n° 14.
“Evangelizar é, de fato, a graça e a vocação própria da Igreja, sua identidade mais profunda. Ela existe para evangelizar”. afirma.
E João Paulo II na Christifideles Laici, no n° 33: “Os fiéis leigos, precisamente porque são membros da Igreja, têm a vocação e a missão de anunciar o Evangelho: para essa atividade estão capacitados e comprometidos pelos sacramentos da iniciação cristã e pelos dons do Espírito Santo”.
Reconhecendo essa responsabilidade, os leigos vão ser o fermento que transformará a face da paróquia. Mas tudo isso não será possível se o sacerdote, por sua vez, não se abrir definitivamente e firmemente ao que dá singularidade ao seu serviço sacerdotal, ao que dá uma profunda unidade às milhares de ocupações solicitadas dele ao longo de sua vida: anunciar o Evangelho de Deus e formar leigos evangelizadores.
É transformando-se em uma paróquia viva e evangelizadora que a paróquia mudará de rosto.
– Para quem é dirigido esse seminário e, qual é o fio condutor com o do ano passado?
– Pe. Pigi: O seminário se dirige a todos os sacerdotes que desejam transformar sua paróquia e também descobrir novos caminhos de evangelização, seguindo os ensinamentos do Papa.
Esses sacerdotes irão acompanhar diversos leigos de sua comunidade de forma que esse pequeno grupo que se formará possa representar uma força motriz no interior da paróquia.
Este ano abordaremos mais especificamente a formação dos que estão convidados a serem os “líderes” desses pequenos grupos que são células.
– O método das células de evangelização fará 1 ano em maio que foi reconhecido pela Santa Sé. Esse reconhecimento teve impacto sobre seu crescimento nesse ano e sobre a percepção que alguns poderiam ter desse método de evangelização?
– Pe. Pigi: Claro, muitos preconceitos desapareceram porque esse reconhecimento oficial, que não havíamos pedido, mas que o Conselho Pontífico para os Leigos nos ofereceu, qualifica-nos no plano das atividades da Igreja universal como tal, garantindo a ortodoxia do método sobre a base dos resultados espirituais e de difusão obtidos até agora.
Esse reconhecimento, que expressa a vontade da Igreja de que continue esse método, confirma o catolicismo e a validade pastoral de uma proposta capaz de renovar profundamente, e de uma visão missionária, às comunidades paroquiais.
– Há novas paróquias que decidiram, desde então, recorrer a esse método?
– Pe. Pigi: Sim, vemos, de fato, que centenas, talvez milhares, de paróquias no mundo adotaram com êxito este método de evangelização através das células.
No Decreto de reconhecimento, está escrito: “Isso porque a comunidade paroquial é o tecido eclesial no qual se integra o conjunto do sistema das células. Seu desenvolvimento em diversos países através do mundo demonstra a validade desse método, que contribui com a resposta do convite do Papa João Paulo II a uma “nova evangelização, nova em seu ardor, seus métodos e suas expressões” (Discurso à IXI Assembleia do Conselho Episcopal Latino-Americano, 9 de março de 1983).
Desde a apresentação do Decreto de Reconhecimento, obtido em 29 de maio de 2009, surgiram novas iniciativas em diversos países do mundo. Muitas comunidades nos convidaram para apresentar esse método e muitos sacerdotes e leigos estão vindo conhecer nossa realidade.
Temos vivido uma experiência importante e significativa com as comunidades chinesas que, através de ouvir falar desse método de evangelização no âmbito paroquial, vieram participar do Seminário Internacional do ano passado.
Também temos visitado as comunidades paroquiais do Brasil e da Venezuela, onde a experiência das células paroquiais está produzindo outras centenas de células.
No mês de janeiro de 2010, se reuniram em Santo Eustorgio os promotores de área, como são chamados os que se ocupam das células presentes nas diferentes regiões geográficas ou linguísticas do mundo.
Essa reunião foi uma oportunidade para colocar, online, o website internacional de células, que representa uma boa ferramenta de evangelização. Seu endereço é www.cells-evangelization.org.
O encontro também ofereceu formação da equipe internacional encarregada da formação de líderes e co-líderes.
Além disso, nos permitiu saber como e com qual amplitude as células se propagam pelo mundo.
Hoje mesmo eu conheci o nascimento de 17 células em uma paróquia da Letônia e fiquei sabendo que trinta pessoas dessa paróquia participarão do próximo seminário de 26 a 30 de maio.
– Quais são os países mais adeptos dessa diferente maneira de vida na paróquia?
– Pe. Pigi: Na França, Bélgica, Irlanda, Itália, Brasil, Venezuela, países da Europa Oriental, entre outros.
Em suma, onde a paróquia tende a adormecer, as células podem representar uma ocasião para renovar os sacerdotes e os fiéis leigos.
Fonte: http://www.zenit.org/article-24397?l=portuguese
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